Aos 118 anos, jornal O Município chega à edição número 10.000

POR CLOVIS VIEIRA

Exatamente no dia 3 de março de 1906, nascia numa gráfica da rua Saldanha Marinho, em São João da Boa Vista, o jornal O Município. Foi, talvez, ali no terceiro quarteirão, na calçada à esquerda de quem sobe a rua. O fundador do novo veículo de comunicação da cidade, Carlos Lühmann, já fazia parte da Revista Cirrus, literária e científica, que foi editada nos anos 1904 e 1905. O editorial da primeira edição do O Município trazia em tom dramático, o que o jornal pretendia: “Com o firme proposito de crear e manter um bis-semanario IMPARCIAL e INDEPENDENTE, apresentamos vos hoje, illustrados senhores, O Municipio, folha litteraria e noticiosa, cujo destino é o de ser victima do punhal assassino de seus progenitores no dia em que ela se vir coagida a desviar-se da senda que neste momento lhe dedicamos”.

VERDADE

Doze décadas depois, no dia 23 de agosto de 2023, o jornal entregou nas bancas e aos seus assinantes a edição 10.000. As histórias e desafios ocorridos nos 117 anos de atividades ininterruptas do O Município são dignos de serem reunidas e apresentadas a todo estudante de Jornalismo, com aprendizado garantido.

O número de colaboradores – entre eles profissionais da área, diagramadores, agentes comerciais, desenhistas, poetas, cronistas, articulistas e alunos de Jornalismo – compõe uma lista invejável de homens e mulheres de uma cultura indiscutível, formadores de opinião. Com o interesse de possuir um órgão de comunicação, o destino do periódico esteve em muitas mãos nessas décadas todas. A cada novo proprietário, suas ideologias foram refletidas nas páginas do bissemanário, muitas vezes promovendo discussões acaloradas nos mais diversos assuntos.

O ponto, é que O Município sempre foi um organismo vivo, ao qual grande parte da população recorria para inteirar-se dos fatos. “Se está no O Município, então é verdade!” – sempre foi a frase mais falada, para referir-se ao jornal.

PAIXÃO PELO JORNAL

Nos meses finais de 1987, Dr. Joaquim Cândido de Oliveira Neto adquire o jornal. Apaixonado pelo jornalismo empenha-se com dedicação no noticioso, contrata nova equipe, introduz o jornal na era da informática (1992), atualiza o visual de suas páginas e planeja a edição de suplementos especiais. Nos primeiros meses de 1988, O Município apresenta aos seus leitores essa nova fase.

HOMEM DE HISTÓRIA
Dr. Joaquim, como era conhecido, era doutor em Direito pela Universidade São Francisco (USP) e esteve à frente da o publicação durante muitos anos. Além disso, foi professor da Faculdade de Direito de São João (UNIFEOB) e um dos constitucionalistas mais respeitados da área.

Nesse tempo, o jornal não tinha uma divisão de funções como hoje. Era uma estrutura acanhada, ainda no sistema past up, antiga montagem de arte-final, produzida em papel, colada sobre papel cartão e encaminhada para reprodução em fotolito. Funcionava na rua Capitão Bronze, onde era o antigo Café Negrito. Foi em 1996 que a edição em cores teve início, bem como a circulação duas vezes por semana e a profissionalização da redação.

Tinha quase nenhum apelo popular, antes dessas mudanças. Uma série de matérias de Valter Lühmann, em 1991, intituladas A Fala do Trono, que eram sempre dirigidas ao prefeito da época, recuperou a vocação de ‘voz do povo’, de jornal combativo e independente, que seu pai havia lançado em 1906. Entre os anos 1998 e 2000 chegou a rodar 12 mil exemplares nas edições de sábado.

MÍDIA

Muitos dos colaboradores que passaram pela redação concordam que é a perseverança que o faz manter-se vivo, 117 anos depois de sua criação. O Município pôde ser inovador, porque contou com um mecenas para isso. No caso, foi o próprio dono, o Dr. Joaquim Cândido. Entre 1998 e 2001, apontam alguns desses colaboradores, o jornal era maior do que a cidade podia comportar. A São João da Boa Vista daqueles anos não tinha indústrias como hoje e, embora o comércio fosse forte, ainda não tinha visão de marketing.

A instalação dos cursos de publicidade e propaganda e de jornalismo, na UNIFAE, foi o fator que ajudou a mudar isso. O país e o mundo também eram outros. Na época das grandes inovações, não havia agências de publicidade no município e computador ainda era artigo de luxo. Grande parte dos anúncios publicados era produzida ainda no sistema past up na própria redação, com grande criatividade. Outras propagandas chegavam prontas de agências da capital. Gradativamente, o jornal se tornou o melhor veículo publicitário impresso da região, no qual as empresas da cidade podiam investir com garantia de retorno.

BANDEIRAS

Para registrar a história sanjoanense, vários profissionais foram contratados para isso. Uma equipe eclética foi formada e se dedicava a pesquisas e entrevistas para levantar os fatos ocorridos e os que aconteciam naquele momento. Surgiram os cadernos especiais, no formato tabloide recheados de fatos e fotografias raras, com grande importância histórica, que foram entregues aos assinantes junto a algumas edições de destaque. Entre elas, o aniversário da cidade, a fundação do município, um personagem marcante do passado, a revelação da histórica de alguns edifícios como a escola Coronel Joaquim José, o Theatro Municipal, a participação do município na Revolução de 1932.

O Município teve grande importância social e política, não apenas nos chamados ‘anos de chumbo’ (últimos anos da década de 1960 e início dos anos 1970), quando a redação foi destruída por duas vezes como represália ao seu posicionamento político. Mantendo o seu compromisso com a verdade, na gestão do Dr. Joaquim Cândido, algumas ‘bandeiras’ foram defendidas com empenho, por ser de grande interesse da população que importantes projetos fossem viabilizados. Através de reportagens, de artigos e de editoriais, o jornal se posicionava com grande força para que homens públicos fossem motivados a dar andamento e finalização a essas realizações.

Entre as ‘bandeiras’ defendidas pelo O Município durante muitos anos e em muitas edições, constam a solução para o chamado ‘funil de morte’, a rodovia que liga São João a Aguaí, de mão única, responsável por inúmeros acidentes fatais; a vinda Universidade Estadual de São Paulo (UNESP) para São João, mesmo depois da recusa de um prefeito por sua instalação na cidade; a construção da represa junto à ‘ponte de arco’ (ponte jornalista Valter Lühmann), que ainda não foi viabilizada; a vinda do Instituto Federal (IFSP) para São João; e, por último, a construção da alça viária que dá acesso à UNESP.

ATUALIDADE

Com o falecimento do Dr. Joaquim Cândido de Oliveira Neto em janeiro de 2021, no período da pandemia de Covid 19, sua família assume a direção do jornal. As duas edições semanais são mantidas, o número de funcionários fica reduzido ao essencial, sem comprometer a qualidade do conteúdo. Nesses novos tempos, o bissemanário enfrenta a ‘concorrência’ mercadológica das redes sociais e dos veículos que circulam na internet oferecendo espaço publicitário.
A notícia estampada em suas páginas, o apuramento dos fatos, o prazer de folhear os cadernos e sentir no tato o papel com seu cheiro característico, não desaparecerão. Enquanto a ‘velha guarda’ mantém sua paixão pelo jornal, os jovens aos poucos vão descobrindo que “Se está no O Município, então é verdade”.