Por Camilla Resende
O método psicoterapêutico, conhecido como Constelação Familiar, tem se tornado popular em diversas partes do Brasil e chegou também à região de São João da Boa Vista. Em síntese, a terapia estuda os padrões de comportamento de grupos familiares, através de suas gerações. A opção pela Constelação Familiar pode ser feita para resolução de conflitos pessoais, como ferramenta nas empresas para solucionar atritos entre funcionários, para tratar os problemas com alunos indisciplinados na escola e já é aceita, em alguns casos, pelo Sistema Único de Saúde (SUS). A terapia pode ser usada, ainda, para resolver questões jurídicas, principalmente no direito de família.
A Constelação Familiar foi criada pelo psicoterapeuta alemão, Bert Hellinger. Segundo a teoria, cada pessoa é parte de um sistema regido por três diretrizes, chamadas por Hellinger de “Três Leis da Vida”. Para ele, o “pertencimento, a ordem e o equilíbrio” agem na vida de todas as pessoas, quer saibam de sua existência, quer não.
PERTENCIMENTO E EQUILÍBRIO
Na “Lei do Pertencimento”, é entendido que todos fazem parte de um sistema familiar, do qual não podem ser excluídos. Para o psicoterapeuta, se isso acontece, o sistema fica pressionando na busca do membro excluído da família. Essa tensão só pode ser aliviada com o retorno do excluído para o sistema familiar.
A “Lei da Ordem” prevê que os indivíduos que vieram antes, em um sistema familiar, têm precedência sobre os que vieram depois. Os avós precedem os pais, que, por sua vez, precedem os filhos, por exemplo. Se quebrada a Lei da Ordem, causa pressão no sistema familiar, até que se retome o lugar de cada indivíduo no grupo. A “Lei do Equilíbrio” fala que deve haver uma troca igualitária entre os membros do sistema, no que se trata de dar e receber, em sentido amplo. Se alguém somente dá e outro indivíduo somente recebe, o sistema é pressionado até que o equilíbrio da troca entre os indivíduos seja restabelecido.
A técnica da Constelação Familiar pode ser aplicada de diversas formas. No geral, quem procura a terapia para tratar de uma questão recebe o nome de “constelador”. Quem orienta a sessão é chamado “terapeuta constelador” e, para o desenvolvimento do método, alguma vertente precisa ser escolhida como forma de “representar” o problema abordado na sessão. Em Águas da Prata, cidade vizinha a São João da Boa Vista, é possível fazer parte de uma sessão de terapia Constelação Familiar. Na cidade, o terapeuta constelador é José Alexandre Ribeiro Dutra, o Xamã Timberê Aryanã. Timberê é terapeuta natural, constelador, hipnólogo e xamã transpessoal Aryanã. Ele opta por trabalhar com o método de grupo para o momento de representação, mas explica que a terapia pode ser feita de diversas formas. “O trabalho pode ser feito em uma variedade muito grande, hoje em dia. Pode incluir desde a utilização de bonecos, até cavalos. Há uma terapeuta que trabalha com bonecos de espuma que são jogados em uma piscina, existem pessoas que trabalham com cadeiras ou bonecos de brinquedos”, conta.

Para as sessões em grupo, os participantes que recebem o nome de representantes e a função de colaborar com o movimento da terapia, se sentam em um círculo. O constelador da vez se senta ao lado do terapeuta e narra a história que o motivou a procurar a terapia. Neste momento, descreve Timberê, é preciso sentir a história para, então, nomear cada emoção presente na narrativa apresentada. Algumas das pessoas que participam da sessão como representantes são convidadas a representar os elementos presentes na história a ser constelada: um pai, uma mãe, o sentimento de medo, ansiedade, felicidade ou instabilidade, por exemplo. “A constelação é como uma bolha. Como se nessa bolha estivessem todas as informações sobre o tema que a pessoa está levando. E as outras pessoas que se aproximam dessa bolha, são como pequenas bolhas menores que, ao encostar nessa bolha grande, fazem uma absorção daquela história, como uma osmose. Existe uma troca de uma história pessoal com essa história maior, que foi o tema levado”, afirma.
Nomeados, os representantes se deslocam para o centro do círculo. “Peço para que elas saiam de sua bolha pessoal e entrem nessa bolha coletiva. Então as pessoas começam a ter essas sensações que existem dentro dessa bolha. É como se elas passassem a sentir o que elas estão representando naquele momento e, automaticamente, trabalhando isso internamente, aquilo que elas também sentem”, relata Timberê.
PERCEPÇÃO DOS RESULTADOS
Com o método, o constelador assiste a representação do problema pelo qual ele passa. Nenhum dos representantes têm algum texto prévio ou qualquer tipo de ensaio. Toda a representação acontece baseada nos sentimentos que surgem naquele momento.
Os resultados para o constelador podem surgir de forma imediata ou a longo prazo. O tempo para desfrutar dos resultados varia de acordo com as proporções e a complexidade dos casos levados até a constelação. Ainda com a variável, Timberê afirma que as soluções aparecem rapidamente. “Muitas vezes, em casos que ficariam em umas seis ou sete sessões, com uma Constelação a pessoa consegue resolver todas as questões pendentes. Isso porque é um conjunto de pessoas que auxiliam no resultado e na conscientização do constelador. É algo muito rápido. Por exemplo, teve uma pessoa que foi na Constelação porque tinha conflitos com a família e, quando chegou em casa, a família estava toda sentada na mesa aguardando a chegada dela para o almoço. Para ela foi uma surpresa, porque ela contou que isso não acontecia há muito tempo”, contou.
CONSTELAÇÃO COMO ALTERNATIVA
As vantagens da Constelação Familiar fazem do método uma alternativa de resolução de conflitos que se torna cada vez mais popular e utilizada. Em casos específicos, o método pode ser usado como alternativa para resolução de conflitos judiciais. A aplicação do método no Direito é de iniciativa do Juiz Sami Storch.
A advogada Ellen Cristina de Oliveira Lopes tem uma tese de mestrado, na linha de educação e cidadania e trabalha a psicologia moral junto ao direito, na resolução de conflitos através dos meios adequados. Para entender o uso da Constelação na área judicial, Ellen participa de sessões da terapia. “A constelação traz à tona a real causa do conflito, faz com que as pessoas do sistema se ouçam, se vejam e se entendam dentro daquele sistema familiar”, endossa a advogada.
Ellen pontua, ainda, que os casos em que é mais comum a aplicação da Constelação Familiar envolvem, por exemplo, um problema de pensão alimentícia ou da guarda dos filhos por pais que se divorciam. Quando as partes passam a entender as causas que as levaram ao conflito, é mais provável que a resolução do caso se dê de forma amigável, com um acordo que gere a solução definitiva. “A gente entende que, quando esse conflito não é solucionado pela sua causa real, as partes vão, inclusive, ser reincidentes nos processos. Hoje, se faz um processo por causa da guarda dos filhos, mas, dalí a pouco, se o conflito não está resolvido e não há um diálogo para que as duas partes se entendam, surge um processo por causa da pensão alimentícia, e vai, cada vez mais, carregando o judiciário”, exemplifica Ellen.
A eficácia provoca o crescimento na utilização da Constelação. “São poucos os Juízes que aplicam o método e sempre depende da vontade das partes envolvidas. Mesmo assim, desde 2012 a aplicação da Constelação Familiar vem crescendo bastante. Segundo o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), pelo menos 11 Estados e o DF já a aplicam”, finaliza.
NÃO HÁ ESTUDOS CIENTÍFICOS QUE PROVEM SUA EFICÁCIA
Bruno Costa, psicólogo da Universidade de Brasília (UNB), diz que como não existem estudos que atestem a eficiência e a eficácia da constelação, não adota a prática. “Não estou invalidando a vivência e a experiência das pessoas que afirmam sentir a energia dos outras. Mas o que acontece pode ser um fenômeno psicológico vindo de uma experiência catártica, ou de alguma forma estimulada pelos procedimentos usados na sessão de constelação”, explica.
Além da falta da base científica, é questionada a falta de acompanhamento psicológico após participar da atividade, já que a pessoa pode descobrir traumas ou lembrar de histórias que está reprimindo. Depois, ela sai da constelação sem ter um terapeuta e terá de lidar com as descobertas sozinha. Tiago Tatton, psicólogo e pós-doutorando em psiquiatria na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), ainda acrescenta que é arriscado o fato de que quem está comandando a constelação nem sempre ter formação em psicologia ou análise.
Costa afirma que já teve de acolher pessoas com crises depois de passar uma constelação. “Todo procedimento psicológico que procura investigar e trazer lembranças de períodos conflituosos não superados pode causar uma crise depressiva e até existencial na pessoa”, diz. Para ele, o procedimento ainda demanda muita pesquisa. “E isso não é ruim, é bom para verificar sua validade.”












