POR DUDA OLIVEIRA

O mercado de e-sports cresce a cada ano.
Em 2019, o setor atingiu aproximadamente 450 milhões de pessoas, de acordo com pesquisa da Newzoo, agência global de marketing especializada em games.
Entre os fatores que explicam tal crescimento, está a presença cada vez mais significativa de mulheres jogando ou acompanhando as ligas competitivas.
De acordo com uma pesquisa feita pela Interpret, que comparou dados de
2016 com 2018, em apenas dois anos, o público feminino consumidor de e-sports cresceu 6%, passando de 23,9% em 2016 para 30,4% em 2018.

No Brasil, elas são quase metade dos consumidores de games, com 47% do público, segundo pesquisa encomendada pela Brasil Game Show ao Datafolha.
Mas ainda enfrentam machismo ao se destacarem—que vão desde piadas, xingamentos de jogadores que não admitem uma derrota para alguém do sexo oposto, até ameaças e assédio. O que não impede que mulheres gamers conquistem cada vez mais seu espaço no meio profissional e até na elite dos e-sports.

DEMISSÕES E ASSÉDIO

O assédio sexual e moral dentro das transmissões online dos jogos é uma triste realidade. Dois casos emblemáticos são os de Nyvi Stephan e Gabi Cattuzzo. Em 2016, Nyvi estampou a capa da revista Playboy e à época contou que sofreu assédio após ter exposto seu corpo. A gamer e apresentadora de campeonatos entrou no mundo dos games em 2014, após largar a área da qual é formada, Design de Modas.
Já a gamer Gabi Cattuzzo em junho de 2019 teve seu contrato rompimento
de com a empresa Razer após responder a comentários machistas em suas
redes sociais.

Em outubro deste ano, a apresentadora no canal do YouTube da Xbox Brasil,
Isadora Basile, anunciou que foi demitida pela Microsoft. Segundo ela, o desligamento foi para evitar que ela “continuasse exposta a ataques que vinha sofrendo”.
Isadora estava no cargo desde setembro. Porém, nesses meses, a apresentadora relatou ter sofrido diversos ataques e assédios por parte dos telespectadores do canal, incluindo ameaças de estupro e mortes. “No início de setembro, quando anunciei meu novo trabalho, sofri ataques de todos os tipos, desde pessoas falando que eu não jogava jogo x ou y e por isso não era ‘digna’ do meu cargo, até ameaças de estupro, morte e julgamentos por expor situações mais tensas. Devido a todos essas ataques, a Microsoft encontrou como melhor opção me desligar do cargo de apresentadora, para que não esteja mais exposta a situações como essas que se passaram“, escreveu em um post.

No Twitter, o Xbox Brasil se pronunciou e disse que o motivo do desligamento foram mudanças na estratégia de conteúdos. Nas redes sociais, a demissão
da apresentadora gerou revolta. Muitos internautas consideram a atitude da marca machista. “A lógica é: se a mulher sofre machismo, ela tem que ser demitida, afinal sem mulher, sem machismo“, escreveu uma usuária do Twitter.

ASSÉDIO ONLINE

Um estudo da Universidade Estadual de Ohio, nos Estados Unidos, publicado em
2016, promovida pelas pesquisadoras Jesse Fox e Wai Yen Tang, mostrou que
100% das gamers que jogam pelo menos 22 horas semanais já sofreram algum
tipo de assédio. A pesquisa foi feita em um questionário online com 293 mulheres e mostrou também que a maioria dos casos de assédio envolviam referências
sexuais. O estudo afirma que durante as partidas em games online, tanto homens
quanto mulheres são alvos de assédio, mas, foi verificado que quando o assédio é sexual, as vítimas são em grande maioria mulheres.

A pesquisa listou as principais agressões mencionadas nas respostas do questionário: insultos sexistas e sobre aparência, piadas sobre estupro, pedidos de favores sexuais e casos de stalking, em que a agressão vazava para a vida real da vítima por meio das redes sociais.

A estudante de arquitetura e urbanismo, Carolina Zanardo, de 19 anos, disse que começou a se interessar em jogos desde pequena, mas que foi aos 14 que passou a ter mais interesse. Carol contou que atualmente não joga com tanta frequência, mas que jogava League of Legends (Lol), Counter Strike e Warface.
Carol falou que identificavam ela como mulher por meio do nome em que ela utilizava no jogo e que algumas vezes ela usava um nome unissex, para dificultar a identificação do gênero dela. “Caso eu morresse no jogo, já vinham xingando falando várias besteiras”, relatou.

A estudante contou que já ouviu comentários como “mulher não serve para jogar”; “vai lavar uma louça que você ganha mais”; “mulher só deve dar suporte
[termo utilizado dentro do jogo League of Legends, quando o jogador tem um único
objetivo de auxiliar a equipe]. “A maioria dos comentários foram nesse sentido, por
isso eu e várias meninas que jogam colocam nomes unissex
”, comentou.

Camila Ramos, de 24 anos, é psicóloga, tem especialização MBA em gestão de
RH e tem como hobby, há oito anos, os jogos online. Camila disse que atualmente tem jogado principalmente League of Legends e Counter Strike. Ela contou que começou a perceber que era vítima de assédio quando começou a jogar online com mais amigos à distância, em 2012, e muitos a cantavam, mesmo sabendo que ela namorava à época.
O episódio que mais me marcou nesses anos foi em 2014 quando eu comecei a namorar à distância com um cara, éramos muito amigos. Ele morava em São Paulo e combinamos de nos encontrar numa feira de eventos que iria ter no mês de julho. O encontro foi timo e nos divertimos. Porém, no dia seguinte quando fomos jogar com nossos amigos ele começou a me expor. Um dos nossos amigos perguntou se eu era peituda e ele falou que não. Que eu tinha ‘peito pequeno’ (sendo que ele nem tinha visto). Isso tudo comigo na sala, e eu fiquei totalmente sem reação”, relatou Camila.Dentro do jogo com pessoas
desconhecidas eu já li e escutei que eu era vagabunda, que lugar de mulher era na
cozinha lavando louça, que eu era escrota, feia, ridícula e afins
”, relatou Camila.

Pamela Parra, de 19 anos, cursa medicina veterinária e joga desde os 10 anos
de idade. Atualmente, Pamela joga League of Legends, pois não possui nenhum
console no momento.

A estudante falou que percebeu que sofria assédio durante
as partidas quando um jogador específico começou a xingar e tentou a insultar
durante a partida. Pamela contou que no dia, ela era a única com nickname [apelido] feminino e a única a ser xingada.

A estudante lembrou também de uma outra partida em que um dos jogadores se referiu a ela dizendo “tinha que ser mulher para jogar tão ruim desse jeito”, os demais jogadores que estavam na partida deram apoio ao assédio e iniciaram mais comentários pejorativos contra Pamela. Durante todo o discurso de ódio, Pamela disse que eles falavam para que ela se matar. “Ao longo do tempo, você se acostuma, aprende a ignorar e percebe que na maioria das vezes é um moleque de 11 anos digitando. Agora consigo ignorar mais, o jogo tem uma função de mutar [silenciar] o jogador, então não aparece mais nada do que ele digita e é perfeito”, explicou.

Ela também contou que durante uma partida ao vivo de outro gamer em uma
plataforma de streaming – Twitch – ela comentou sobre o jogo e outro espectador foi até o chat dela e começou a assediá-la com comentários sobre a cor dela, comentários com conotação sexual, sobre como a vagina dela poderia ser ‘rosinha‘. Mesmo pedindo para que ele parasse, o assediador não parou e Pamela precisou bloqueá-lo.

As reações para os assédios eram diversificadas. Carol, por exemplo, conta que ficava desanimada para jogar outras partidas. “Eu respondia aos comentários ofensivos e em alguns jogos, acabava reportando a pessoas e isso fazia o jogador perder a conta”, contou.

SEPARAÇÃO POR GÊNERO

Camila comentou que acha a separação de times por gênero injusta e que as premiações só intensificam o machismo.
Acredito que ela passa uma ideia de ‘os homens são melhores, então eles ganham
mais’.Atualmente existem times e campeonatos femininos, e acredito que nossa
comunidade deveria apoiar mais e assistir mais
”, explicou.

As três jogadoras também comentaram sobre o acontecido com Gabi Cattuzzo e concordam que o posicionamento da marca foi conivente com os assédios
cometidos contra a gamer. Carol entende que mesmo o discurso de Gabi sendo
agressivo, não teria outro modo de rebater aqueles comentários pejorativos.
Eu acho certo o que ela fez, sim. A marca passou pano, em vez de defender ela.
Apesar dela ter sido um pouco agressiva, eu concordo total com a forma que ela
falou, porque se ela tivesse falado educadamente, xingariam de qualquer jeito,
então, para mim, foi ótimo ela ter saído desse patrocínio
”, afirmou.

Camila explicou que quando a marca tira o patrocínio da vítima em um
caso desse, acaba culpabilizando a vítima indiretamente. “Não apoio a decisão
e o posicionamento da Razer nessa situação. Um número muito alto de mulheres
sofrem no jogo por apenas serem mulheres, com comentários pra lá de babacas.
A partir do momento que a marca retirou o patrocínio e culpabilizou, indiretamente, ela, apoiou os milhares de comentários e atitudes machistas
”, afirmou