POR DUDA OLIVEIRA
As áreas da engenharia sempre foram conhecidas pelo domínio dos homens; mulheres foram excluídas desses campos, pois até há pouco se acreditava que mulheres não tinham inteligência suficiente para fazer contas complexas. Junto a isso, tinha também o estereótipo de que mulheres deveriam ocupar cargos femininos, que necessitavam de atenção e “um toque” de feminilidade, como enfermeiras e professoras. Com o tempo, elas passaram a ocupar o mercado de trabalho, tendo como marco a Revolução Sufragista, onde mulheres conquistaram o direito ao voto e, desde então, lutam para que cada vez mais possam ocupar cargos majoritariamente masculinos, como a área de construção civil.
O Brasil foi o primeiro país de toda a América a ter faculdades de engenharia, com a fundação da Real Academia de Artilharia, Fortificação e Desenho, que posteriormente, em 1858, daria origem à Escola Central, responsável por formar os primeiros engenheiros civis do país e, principalmente, Edwiges Maria Becker Hom’meil, também conhecida como a primeira engenheira civil do Brasil. Edwiges se formou em 1917. Sendo a primeira mulher a se formar na área, mostrou a importância da representatividade e deu espaço a mais mulheres que queriam ingressar nesse ramo. Assim, a primeira mulher negra a se formar engenheira civil no Brasil e a primeira mulher a se formar engenheira civil no estado do Paraná foi Enedina Alves Marques, em 1945, aos 32 anos.

Enedita foi responsável pelo Plano Hidrelétrico do Paraná, atuando na Usina Capivari-Cachoeira, além do projeto do Colégio Estadual do Paraná e da Casa do Estudante Universitário, de Curitiba (CEU). O pioneirismo de mulheres no século XX contribuiu para que outras mulheres pudessem continuar ocupando espaços nas salas de aula, como mostram os dados do Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (Dieese) e Federação Nacional dos Engenheiros, que apontam, entre os anos de 2003 e 2013, um número expressivo de mulheres que se formaram, e que passou de 24.554 para 54.022. Foi um crescimento de cerca de 132%. Porém, de acordo com o Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (Confea), mulheres ainda são minoria no mercado de trabalho, sendo que homens ocupam mais de 86% das vagas e mulheres apenas pouco mais de 13%. O Confea divulgou também que, dos 273.491 profissionais de Engenharia Civil ativos no Conselho, apenas 53.960 são mulheres.

PROFISSÃO MASCULINA
A arquiteta, Mariana Mendes, relatou que passou por momentos onde sentiu que não foi respeitada por ser mulher e disse que, nesses momentos, pedia para que tais atitudes não fossem repetidas. “A reação a esse pedido é surpreendente, pois em todas as situações o pedido foi acatado, porém, com estranheza. Nesse ponto, vejo que o fator respeito não foi cumprido, então, a partir daí, esse profissional não irá trabalhar mais comigo”, explicou.
Mariana associou a diferença de gênero dentro da construção civil ao conservadorismo atribuído à profissão, mas acredita que esse comportamento pode ser mudado com a educação. “A diferença de gêneros dentro da construção civil é algo incontestável, pois, infelizmente, ainda existe um conservadorismo muito grande dentro desse campo, em nosso país. Mas acredito que o conhecimento coloca todos em um mesmo poder de atuação e que quando compartilhado com o outro, aumenta as chances de ter resultados positivos em nosso trabalho”, disse. “O amadurecimento do conhecimento no decorrer da minha carreira, me possibilitou de alguma forma driblar o machismo. Por isso, hoje, quando nós mulheres impomos nossa participação e mostramos a todos quão qualificadas somos para desenvolver qualquer função de desejemos, tornamos essa diferença cada vez menor em nossa atuação profissional”, explicitou a arquiteta.

A engenheira civil, Fernanda Pellegrinelli, contou que, antes de entrar para engenharia, era designer de sobrancelhas, mas que a construção civil sempre foi seu sonho. Por isso, mesmo estabilizada financeiramente como designer, optou por entrar na graduação aos 27 anos, tendo que conciliar o estudo com o trabalho de designer e a maternidade.
“Na época eu não podia largar o emprego, porque era uma faculdade cara. Foi muito difícil. Eu trabalhava o dia todo e à noite, quando poderia ficar com meu filho, eu não conseguia. Eu o via pouco. Me dividia entre trabalho da faculdade e casa, mas todo momento em que eu estava com ele era só com ele. Não tinha celular, faculdade, nada. Era eu e ele”, lembra. “Graças a Deus, meu filho compreendeu isso. Ele amadureceu muito rápido nessa parte de pensar que a mãe dele estava fazendo uma coisa pelo bem dele. E nos cinco anos de faculdade eu consegui conciliar tudo”, conta a engenheira. Fernanda relatou à reportagem da Revista Atua que passou por episódios de discriminação e que isso começou dentro das salas de aula. “O pessoal mais novo compreendia bem, tratavam a gente por igual. Eu sentia um pouco de preconceito na hora de fazer grupo com o pessoal um pouco mais de idade”, revela.

“Senti muito preconceito também da parte dos professores; mas não dos professores que eram graduados pra dar aula, e sim dos que atuavam na área e também davam aula. Esses mostravam um certo desconforto quando fazíamos uma pergunta. O preconceito começou dentro da sala de aula. Um dia escutei de um professor que, pra uma mulher fazer engenharia, ou ela é feia ou é sapatão” – termo pejorativo que se refere às mulheres lésbicas, destaca Fernanda. A engenheira disse também que os homens tinham privilégios que davam a eles oportunidade de terem estágios e trabalhos remunerados, mesmo antes de se formarem, enquanto que, para as mulheres, as oportunidades não eram as mesmas. “Eles torciam o nariz por você ser mulher”, conta. Fernanda lembrou de momentos em que sofreu preconceito por atuar numa área majoritariamente masculina. “A pessoa não confia em você por você ser mulher, ela não acha que você é capaz de fazer um cálculo. Alguns homens, os pedreiros mesmo, não acreditam que você vai subir numa escada, não acreditam que você vai entrar num buraco para fazer uma estrutura”, relata.
ELA TEM CAPACIDADE?
“Eles falam: ‘não dona, você vai se machucar!’; ‘mas você vai fazer isso?!’. Eu sou baixinha, minha voz é fina e eles me olham se perguntando ‘esta é a engenheira?!’, mas depois que eles me conhecem, acabam vendo que sou capaz. Mas até então, a gente sofre muito preconceito. Ás vezes a gente fala com a pessoa por telefone, por e-mail, e na hora em que a gente acaba encontrando pessoalmente, pelo fato de ser mulher, os clientes se perguntam: ‘será que vai dar certo?’”, acrescenta Fernanda.
Outra profissional que atua na área de construção civil em São João da Boa Vista é a pedreira Adriana Cristina Antônio, mais conhecida como Nenê, que iniciou sua carreira há cinco anos, quando tinha 24 anos, como servente de pedreiro, amarrando ferragem. Ela agora trabalha com a parte de acabamento. “Comecei a trabalhar com isso porque estava desempregada. Meu pai é mestre de obras e pedi uma oportunidade a ele”, comenta. “No começo ele não queria muito, porque é uma profissão que só tem homens, mas acabei indo. Amarrei ferragem em uma firma no Distrito Industrial, depois fui trabalhar de servente e, com o tempo, comecei a mexer mais com acabamento. Hoje eu gosto muito do que faço”, declara Nenê. Ela comenta que algumas vezes já ouviu que só conseguiu uma vaga nesse ramo devido ao seu pai, mas garante que não se importa com esse tipo de comentário, pois sabe de seus limites. Além disso, a pedreira conta que algumas parceiras de seus colegas de trabalho ficam enciumadas com sua presença nas obras, pois não acham normal uma mulher nesta função.

Nenê disse que em cinco anos de trabalho nunca compartilhou uma obra com outra pedreira, mas crê que, sendo pioneira nesse ramo, aqui na cidade, pode inspirar outras mulheres a seguirem o ramo. “Essa é uma profissão que sempre está de portas abertas no mercado de trabalho. Pena que temos muito preconceito, ainda. Muitos acham que não somos capazes, pelo fato de sermos mulheres”, relata. Mas a pedreira deixa um recado àquelas que sofrem esse tipo de discriminação: “vá em frente e mostre que você é capaz”.












