POR TAMIRES ZINETTI E LEIVINHA

Alguns anos atrás podíamos dizer que o futebol era exclusividade dos homens. Isso porque, até o final da década de 70, o esporte era proibido para as mulheres. O decreto-lei nº3.199, de 1941, dizia que o futebol era “incompatível com as condições de sua natureza”, além de argumentos que sustentavam que o impacto da modalidade poderia prejudicar a fertilidade delas. Diante de tantos contras, a prática do esporte só saiu da ilegalidade em 1980, mas até hoje enfrenta preconceitos que, lentamente, estão mudando.
Depois das Olimpíadas do Rio, em 2016, o futebol feminino ganhou maior visibilidade no cenário nacional. O portal UOL divulgou um estudo que mostra a ascensão da modalidade feminina na última década. Contudo, mesmo com a crescente popularidade, o futebol ainda é visto como um esporte predominantemente masculino.

SUPERANDO PRECONCEITOS

A estudante de Direito, Maria Fernanda Vidotti, de 20 anos, diz que sofreu preconceito dentro de casa por querer jogar. “Desde criança eu jogava com alguns meninos e eles sempre me respeitaram, mesmo quando as jogadas eram mais duras, com o que eu não me preocupava, mas eles tinham medo de me machucar. Depois que eu cresci meus pais viram que eu não ia parar de jogar bola e começaram a falar que era um esporte para meninos”, conta.

O mesmo aconteceu com a estudante de educação física, Amanda Almeida, que é jogadora profissional há dois anos. Ela comenta que muitas vezes já sofreu preconceito: “As pessoas me falavam que é um esporte de homem, me dando apelidos pejorativos, e que o futebol não era coisa pra mulher. Mesmo assim enfrentei todos os obstáculos e hoje me sinto honrada em ser jogadora profissional de futebol”.

COPA DO MUNDO FEMININA

Com repercussão inédita, o torneio mundial tem sido enaltecido pela mídia e patrocinadores, entre eles a marca de roupas Nike, que realizou um evento na França, país-sede da competição, para exibir os uniformes das 14 delegações que patrocina. Essa é a primeira vez que a empresa faz uniformes exclusivamente para as mulheres na disputa do Mundial e, no caso da seleção brasileira, a camisa contará com a frase “Mulheres Guerreiras do Brasil”. Esse investimento em times femininos ultrapassa a barreira do marketing e chega aos torcedores com entusiasmo. A estudante de Pedagogia, Naira Rodrigues, conta que acompanhou todos os jogos da seleção. “É bacana ver e perceber que o futebol feminino está crescendo e evoluindo, porque desde sempre temos a ideia de que só os homens sabem jogar bola, só eles sabem entrar de um campo e fazer um ótimo jogo. Então, é legal mostrar que essa ideia está totalmente ultrapassada”, afirma.
Naira ainda ressalta que as mulheres também representam muito bem o futebol dentro de campo. “Sabemos o quanto as mulheres têm força e garra, isso também deve ser valorizado por todos e, acima de tudo, elas devem ser respeitadas pelo que fazem”, disse.

PIONEIRISMO EM SÃO JOÃO

Embora proibido, a década de 1950 viu o futebol feminino florescer, atraindo grande público e a atenção da imprensa.E, o que pouca gente sabe, é que São João da Boa Vista faz parte dessa história, sendo uma das cidades pioneiras no esporte.

Em 11 de maio de 1952, driblando a Lei, o preconceito, o machismo, a forte influência religiosa e uma cidade elitizada como a São João da Boa Vista da época, um grupo de alunas do Instituto de Educação Cel. Christiano Osório de Oliveira, com o intuito de arrecadar fundos para a formatura, organizou uma partida de futebol que ficou para a história, por ter levado cerca de 5.000 pessoas à Sociedade Esportiva Sanjoanense e mobilizar a imprensa através da TV Paulista (São Paulo), Rádio Nacional (Rio de Janeiro) e Difusora local, além da Gianelli Filmes do Brasil. A partida foi a pioneira no futebol feminino do país, e despertou tamanha atenção, envolveu toda uma comunidade e rendeu muito falatório, mas aflorou a personalidade marcante daquelas estudantes e serviu de exemplo para a nação.

2º Normal A (com uniforme do Palmeiras F.C.) – Na foto, em pé: Mirtes Marcon, Jandira Cassiano, Aparecida Camargo, Vera Ceschin, Cidinha Morais e Renê Romanholli. Agachadas: Dirce Mineirinha, Dirce Aleixo, Claunice Marcon, Ditinha Tavares e Isa Martarello (Foto: Arquivo www.leivinha.com.br)
2º Normal B (com uniforme da Sociedade Esportiva Sanjoanense) – Na foto, em pé: Terezinha, Yara, Sonia Bissoli, Dalva Alvarez, Glorinha Aguiar e Odila Seda. Agachadas: Marly Gomes, Fany, Evanilde Oliveira, Lourdinha, Ziloca Oliveira e a atriz Vanja Orico (Foto: Arquivo www.leivinha.com.br)

Os times eram formados por alunas e também convidadas. As escalações eram as seguintes: o time do 2º Normal A era formado por Jandira Cassiano (Asmara), Aparecida Camargo e Vera Ceschin (Terezinha); Ditinha Tavares, Iracema e Dirce Mineirinha, Renê Romanholli, Mirtes Marcon, Dirce Aleixo, Claunice Marcon e Isa Martarello (Cidinha Morais); já o 2º Normal B era composto por Sonia Bissoli, Glorinha Aguiar e Yara Del Pozzo; Evanilde Oliveira, Marli Gomes e Odila Seda; Dalva Alvarez, Ziloca Oliveira (Lála), Lourdinha (Terezinha), Fany e Vanja Orrico (atriz de renome nacional, que estava na região para a filmagem do O Cangaceiro, em Vargem Grande do Sul). A partida foi tão importante que contou com o árbitro local, Francisco Pedro Regini, além de uma breve cerimônia no gramado antes do início do jogo, onde foram reunidas lideranças locais, como o diretor do colégio – Dr. Hugo de Vasconcellos Sarmento – e o prefeito João Ferreira Varzim, com suas respectivas esposas.

Mas o sonho durou pouco: ao ganhar fama pelas páginas dos jornais, as atletas atraíam o olhar dos detratores da prática, que passavam a exigir, também pelos veículos de comunicação, o cumprimento da lei. Assim, os times foram obrigados, em poucos meses, a encerrar suas atividades. Pelo tempo dessa jornada memorável, a repercussão ainda é evidente. Em 2014, 73 anos após o decreto proibitivo de Vargas, ironicamente o Palácio do Catete no Rio de Janeiro, sede do governo naquela época, recebeu o Espaço Futebol para a Igualdade, evento apadrinhado por Marta, jogadora da seleção brasileira, que proporcionou ao visitante uma nova maneira de enxergar o futebol entre as mulheres, além do jogo em si, tratando-o como plataforma de superação de preconceitos de gênero, raça e condição social.

FUTEBOL SANJOANENSE

Mais informações sobre esse jogo – que terminou empatado – e suas curiosidades, podem ser obtidas no site www.leivinha.com.br, que reúne um grande acervo sobre a história dos clubes locais e do futebol em São João da Boa Vista.