POR ANA LÚCIA FINAZZI

Em 17 de dezembro do ano de 1949, por volta das 20 horas, uma chuva muito pesada prosseguia noite a dentro em ritmo de tempestade. O resultado desta tormenta acarretou tamanho prejuízo à cidade, que mereceu registro jornalístico e é tópico do livro Minhas memórias, de Octavio Pereira Leite.

Conta o texto: “Fui ao terraço observar a rua. Sobre ela rolava, numerosa, a enxurrada barrenta, extravasando as sarjetas, tomando quase todo o leito carroçável da via pública. Durante quatro horas seguidas, a chuva, diluviana, prosseguia sem quartel. Amainou, depois, quando o relógio da igreja Matriz, com as doze badaladas já havia anunciado o fim do dia e o começo de outro. Pela manhã, após uma noite mal dormida, com espanto, fiquei sabendo as trágicas conseqüências da enchente. Havia caído uma tromba d’agua nas cabeceiras do córrego São João. Aquele curso d’água havia crescido bastante, tornara-se volumoso à maneira de caudaloso rio. Suas águas transbordaram do leito atormentado, invadindo grandes áreas ribeirinhas.”

RIO DA PRATA – Outra grande enchente, que ficou registrada em São João da Boa Vista, ocorreu em 1947, quando o Rio da Prata, que corta o Bairro do Pratinha, transbordou. A Rua Racticlif, principal e de acesso à saída para Vargem Grande do Sul, ficou toda tomada pela água, causando muito prejuízo aos moradores e comerciantes do bairro (Foto: Arquivo Pessoal)

“As construções que aí existiam, sempre precárias, moradias de gente pobre, foram colhidas pela torrente e por esta levadas, envolvidas no turbilhão. O número de desabrigados era grande. Seus móveis, vestuários, seus escassos bens, adquiridos, quiçá, ao preço de árduas jornadas de trabalho, foram levados pela torrente. O panorama, observado ‘in-loco’, era desolador. Ruínas, devastações, pontes avariadas, plantações submersas, árvores arrancadas; algumas delas , as menores, à flor dágua, à deriva, acompanhando outros destroços que emergiam da vasta área conflagrada. Naquela noite de temporal e de angústia e de dor, muitas pessoas acudiram para prestar serviços de socorros aos desabrigados. Graças a essa assistência imediata, à coragem de muitos, vidas preciosas foram salvas. Os prejuízos materiais foram incalculáveis. Contudo, ninguém pereceu aqui na cidade.”

“As autoridades municipais, o vigário Antonio David, ao tempo cônego honorário, o Dr. Santos Lansac e outros, improvisaram providências imediatas. O serviço de salvamento foi bem ordenado, perfeito. Algumas canoas sulcaram o alagadiço transportando moradores do lugar. Aqueles que perderam o lar e tudo quanto nele havia, foram recolhidos em asilos, grupos escolares e casas de particulares. Os desabrigados não ficaram um momento sequer no abandono. Vítimas da grande enchente, por todos amparados, lograram sobreviver.”

Tragédia – Rua São João, cortada pelo córrego de mesmo nome, nos arredores da Rangel Pestana, área muito devastada pela enchente de 1949. Segundo Octávio Pereira Leite, que visitou os locais atingidos, “as águas do córrego São João, transformado em lago, durante vários dias cobriram as várzeas adjacentes” (Foto: Aquivo Pessoal)

“As águas do córrego São João, transformado em lago, durante vários dias cobriram as várzeas adjacentes. Naquele cenário convulsionado pela inundação não ficara a não ser a triste recordação de uma tragédia que vergastou a cidade e a parte mais sofrida, mais carente, de sua população. Logo após o drama vivido naquela noite imemorial, alguns abnegados, dentre eles os vicentinos e os irmãos Marcos, planejaram construir para os pobres algumas casas. Surgiu, então, a Vila São José, localizada na periferia da cidade. Nesse local, em casas humildes, contudo, bem melhores do que aquelas que existem nas favelas, os desabrigados pela enchente e outros vindos depois, encontraram o seu lar e neles passam os seus dias amparados pela generosidade de um grande povo”.

Notas:
A Vila São José foi construída para abrigar os moradores do bairro de Cubatão, construído as margens do Córrego São João. Vai sobre esse bairro você pode saber na matéria A história da população negra em São João.

Na verdade, houve um saldo de 4 mortos, no município de Águas da Prata.