Cerveja Artesanal
Por Bruna Mazarin

A cerveja é uma paixão mundial. E para agradar um público tão variado e com gostos diferentes, ela vem em formas, sabores, cores e aromas diversos. Versátil, a cerveja sempre será uma boa pedida, independente do clima, comemoração, comida ou paladar.

Conforme explica Kaio Corso, que atuou na área de vendas de uma franquia de cervejas, a bebida se divide em três grandes famílias: Lager, Ale e Lambic. Dentro de cada uma delas existem diversos tipos de cerveja, destacando-se as Lagers, a Pilsen, a Bock e a Dunkel. “A Pilsen é o tipo de cerveja mais popular na Alemanha e no mundo. Tem origem tcheca. De cor dourada, o malte dá um adocicado suave, com um toque de caramelo e aromas que lembram biscoito e pão, enquanto o lúpulo contribui com um amargor moderado e características frescas, fazendo com que seja uma cerveja muito fácil de ser consumida”, diz.

Kaio segue explicando que as do tipo Bock costumam ser robustas e alcoólicas, com amargor médio e predominância do malte em relação ao lúpulo, no aroma e no sabor. “Já a Dunkel — palavra alemã que significa escuro — tem sabor e aroma que predominam o malte, em notas de chocolate biscoito ou tostado, com pouco ou nenhum espaço para o lúpulo”.

Entre as cervejas da família Ales, sobressaem-se a Weizenbier, a Pale Ale, a India Pale Ale, a Porter e a Stout. No caso da Weizenbier, o líquido não é filtrado, indicando que a levedura permanece na garrafa, tornando-o turvo. Kaio acrescenta que pelo menos 50% do malte dessa cerveja precisa ser de trigo — o restante é malte de cevada. A levedura utilizada traz aroma de banana e cravo, além de ser uma cerveja bastante efervescente. “Na Pale Ale o lúpulo começa a mostrar seu potencial, dando amargor e aroma às cervejas. Pode ter notas cítricas, de frutas tropicais, florais e até terrosas. Na boca, a percepção do amargor se sobressai. A India Pale Ale (IPA) é a versão turbinada da Pale Ale. Sua origem é bastante conhecida: o teor alcoólico e a lupulagem maiores foram os recursos que tinham a função de conservar por mais tempo a cerveja, no século XVIII, que saía da Inglaterra e tinha que chegar às Índias, de navio, sem refrigeração. O amargor acentuado é a característica principal dessa cerveja, assim como o aroma”. Sobre a cerveja britânica Porter, Kaio destaca que utilizam maltes tostados, refletindo o chocolate e o café no seu aroma. “Já a Stout entra como uma subcategoria da Porter, que acabou tornando-se mais famosa que a original. De cor preta como o piche, o aroma é de café e o gosto vem completamente do malte super tostado”, acrescenta.

Por fim, nas cervejas da família Lambics, ressaltam-se as Fruit Beers, cervejas com adição de algum tipo de fruta, como framboesa, maçã verde e outras. “Essas relíquias seguem até hoje um método ancestral, não muito higiênico, já que são feitas em porões e sótãos, em tanques abertos, o que é essencial para manter vivos os fungos e bactérias que fazem a fermentação espontânea da bebida. Por serem muito ácidas, adicionam-se frutas para conferir aroma e sabor”.

PREFERÊNCIA NACIONAL

Embora haja muitas opções da bebida, no Brasil a Pilsen, é a campeã de vendas, representando 96% do consumo total no país. Kaio explica que o fator determinante dessa preferência foi o clima quente.
“Temos o costume de tomar cervejas mais leves e refrescantes. Por isso optamos pela Pilsen”. Ele conta, ainda, ter observado um aumento recente na venda das Weizenbier e no consumo de cervejas escuras como a Bock e a Stout, no inverno. “Mais recentemente, tendo em conta a influência americana, as Pale Ale e IPA têm caído no gosto dos amantes de cervejas artesanais”.

HARMONIZAÇÃO

Assim como acontece com os vinhos, cada tipo de comida combina mais com um determinado tipo de cerveja. Segundo Kaio, a regra é básica: cerveja leve pede comida leve, enquanto a cerveja mais encorpada e robusta pede comidas de sabor complexo. Ele dá algumas dicas de harmonização. “As do tipo Pilsen, por exemplo, combinam com churrasco, frango a passarinho e batata frita. Já as cervejas Witbier vão bem com comida japonesa, especialmente sushi e sashimi. A Weizenbier vai bem com peixes, frutos do mar e salsichas alemãs. A Fruit Beer harmoniza bem com sobremesas como pudim, torta de chocolate e cheesecake. A Pale Ale combina com hambúrguer, churrasco, coxinha de frango e tábua de frios. O tipo IPA pede comida indiana picante, chilli mexicano, cordeiro e queijos azuis. A Tripelé é ótima com azeitonas e massa à carbonara. A Bock harmoniza com vaca atolada e calabresa. A Porter combina muito com nossa clássica feijoada, bolinho de feijoada e o sanduíche de mortadela. Por último, a Stout é uma excelente opção para acompanhar frios condimentados e sobremesas à base de café ou chocolate”, orienta Kaio.

DO CALDEIRÃO PARA A GARRAFA

O designer, Ulisses Oliveira, fez de seu gosto pela cerveja um hobby. Após vasculhar a internet sobre o assunto e degustar algumas cervejas artesanais, Ulisses conta ter decidido fazer a sua própria cerveja. Segundo ele, essa decisão o levou para um “mundo sem volta”.

“Fiz um curso com o Afonso Landini, proprietário da Arte Brew. Ele é excepcional, vive para a cerveja artesanal. E isso se tornou uma paixão. Um caminho sem volta, mesmo”. Ulisses diz que sempre “brincava” nas horas vagas para desenvolver uma marca e um nome de sua cerveja.

Depois de alguns estudos, ele escolheu o nome Bravus Beer Cerveja Artesanal. Inclusive já nomeou os estilos que produz, como a Bravus IPA — uma India Pale Ale — , a Bravus Stout Beer — tipo Stout — e Bravus 510 — American Pale Ale. “No final do ano passado, participei de um concurso com a Bravus 510 na cidade de Piracicaba e ela ficou em 12ª lugar. Pensa num cervejeiro feliz?”, comenta com risos sobre a conquista.

O cervejeiro não pode vender suas “obras de arte em forma líquida” por não ter registro no Ministério da Agricultura (Mapa), um processo bastante burocrático. Mas ele se diverte produzindo em seus caldeirões levas de 20 litros para os amigos, familiares e por encomenda. “O prazer mesmo é desenvolver e apreciá-la. Meu foco não é ganhar dinheiro e, sim, o hobby”,confessa.

CRIANDO SUA CERVEJA — O designer, Ulisses Oliveira, fez de seu gosto pela cerveja um hobby. Após vasculhar a internet sobre o assunto e degustar algumas cervejas artesanais, Ulisses conta ter decidido fazer a sua própria cerveja. Depois de muito estudo e cursos, ele criou sua própria marca, a Bravus Beer Cerveja Artesanal.

Para Ulisses, produzir cervejas é uma experiência única. Mas ele não vê o hobby se tornar um negócio. “Não existe nada melhor que, em um sábado de verão, à tarde, você sentar e degustar sua própria cerveja. Desde quando comecei, trato como hobby. Não o vejo transformando-se em um negócio. Mas não sabemos o dia de amanhã, não é? Por enquanto, é apenas por diversão”,completa.

DO HOBBY AO EMPREENDIMENTO

O engenheiro químico, Renato Marquetti Junior, também entrou para o mundo das cervejas artesanais por hobby.

“No início era um hobby. Mas os amigos e familiares me incentivaram a prosseguir com aprimoramentos”. Depois de pesquisar mais sobre os processos de produção e participar de vários cursos, Renato fundou, em 2009, a Sauber Beer. De origem alemã, a palavra Sauber significa puro e cristalino, que define bem os produtos da cervejaria, elaborados com ingredientes de qualidade, totalmente artesanais e sem aditivos ou conservantes. “As cervejas Sauber são produzidas em meio à natureza, num ambiente lindo, tranquilo e aconchegante, onde tudo é reaproveitado”, diz Renato.

Com sede em Mogi Mirim, a Sauber Beer tem um catálogo com 28 cervejas. Além dos sabores criativos, as embalagens são outro destaque. Artistas locais pintam quadros que são adaptados para os rótulos das cervejas. A ideia surgiu da artista plástica Vanesca Luisa Rampazo Marquetti, também proprietária da Sauber Beer“Sou artista plástica e sei o quanto é difícil divulgar os nossos trabalhos. Pensando nisso tive a ideia de trocar os rótulos de nossas cervejas por algo que envolvesse arte. Conversei com alguns artistas sobre a ideia de pintar quadros relacionados com um pouco da história das cervejas — origem, cores, sabores, etc. Hoje podemos dizer que as nossas cervejas são uma obra de arte envolvida por outra, transformando-as em obras-primas”, destaca.

BAR DENTRO DA CERVEJARIA

Há cinco anos o casal Stephania Fernandes Alvarez e Leonardo Tomassetti Ferreira Neto começou a fabricar cervejas de modo caseiro em São João da Boa Vista.

“Entrarmos em contato com esse universo em viagens internacionais. Produzíamos para consumo próprio e venda para conhecidos”, explica Leonardo. Nessa experiência, Leonardo conta ter identificado uma demanda para esse tipo de produto. “Em 2015 surgiu a oportunidade de comprar o equipamento profissional. Investimos nossas economias no empreendimento”. Após o período de legalização, a Saint Stelo Microcervejaria foi inaugurada em 21 de maio de 2016. “O significado do nome vem de Santo (Saint), por conta do Santo São João, e Stelo sendo o ‘acrônimo’ de Stephania e Leonardo”.

O estabelecimento é um típico brewpub — bar na cervejaria — , onde o cliente degusta o chopp dentro da fábrica e ainda conhece os equipamentos.“Oferecemos porções de queijos e defumados artesanais regionais, harmonizados com os diversos tipos de chopps produzidos. Também oferecemos delivery de barris com chopeiras para eventos, festas e confraternizações”. A microcervejaria sanjoanense produz desde o chopp mais leves, como Pilsen ou Pale Ale, até o mais encorpados e aromatizados, como IPA ou Stout. “Temos a intenção de oferecer várias opções de chopp simultaneamente, tanto para servir no bar, quanto para delivery, em eventos e comemorações. Futuramente também produziremos cervejas engarrafadas”, antecipa Leonardo.

DIRETO DA FONTE — Brewpubs são os bares que produzem a própria cerveja e só as comercializam no próprio local. São João conta com um dos poucos do Brasil, a Saint Stelo Microcervejaria, que oferece também porções de queijos e defumados artesanais.

Para ele, cervejarias artesanais se destacam na quantidade e na qualidade. “A quantidade, sendo muito menor, se comparada com as cervejas industriais, nos permite acompanhar mais cuidadosamente o processo, adicionando um toque mais humano, com verdadeiro capricho. Além disso, nossa matéria prima é selecionada e não utilizamos conservantes”. Leonardo ainda reforça: “sem dúvida o processo artesanal de produção de cervejas resulta num produto fresco, de qualidade e feito com dedicação”.