POR BRUNO MANSON
O aumento das queimadas proporcionou este ano um dos episódios mais tristes já vistos em todo Brasil. Dados do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) mostram que, desde o Sul ao Norte, todos os biomas brasileiros foram afetados pelo fogo. Para se ter ideia, o Estado de São Paulo registrou aumento em 96% de incêndios este ano.
A região de São João da Boa Vista também sofreu – e ainda tem sofrido – com as queimadas. No início de setembro, uma verdadeira força-tarefa foi feita para conter as chamas que atingiam o Parque Estadual de Águas da Prata e a Serra da Paulista, praticamente ao mesmo tempo. Tamanha proporção dos fogos mobilizou bombeiros, brigadistas e um grande número de voluntários. Eram estudantes, moradores locais, produtores rurais e diversas pessoas das mais variadas profissões que se sensibilizaram e foram até os locais atingidos para somar forças às equipes anti-incêndios.
Assim que as primeiras notícias ganharam destaque na mídia, o policial militar aposentado Antonio Donizeti Leonardi não pensou duas vezes e se uniu às equipes que atuavam em Águas da Prata. Com 58 anos de idade, ele nunca vivenciou tamanha calamidade. “Me sensibilizei ao ver as fotos do incêndio nas redes sociais e também em ver a grande proporção de fumaça que tomava toda serra, além do que em saber da importância do ecossistema que estava sendo destruído”, contou. “Apesar de ter exercido a profissão de policial militar por mais de vinte anos, não tinha participado de combate a incêndio desta proporção”, afirmou o voluntário.
Antonio atuou especificamente em fazer aceiros ao redor dos focos e no combate direto às chamas com água, utilizando um pulverizador costal. Tudo sempre supervisionado por um brigadista ou algum integrante do Corpo de Bombeiros. “O horário de atuação era ininterrupto e consistia em sistema de revezamento entre as equipes e, particularmente, no meu caso como voluntário, seguia até o esgotamento físico”.

‘UM MISTO DE RAIVA E TRISTEZA’
Ao recordar os dias de trabalho, o aposentado falou sobre como se sentiu diante da gravidade do incêndio. “A primeira reação que tive foi de impotência, tamanha a força do fogo em destruir. Foi a pior experiência que tive na vida. Um misto de raiva e tristeza”, confessou. “O que marcou mais foi quando adentrei à mata e vi a destruição que lá acontecia. Ver as árvores queimando e ouvir os animais gritando desesperados foi algo estarrecedor”, lembrou emocionado.
Após toda essa experiência assustadora, ele faz uma reflexão. “A lição que trago comigo é que se não preservarmos a natureza, nós seres humanos estaremos nos condenando à nossa extinção”, advertiu.
SUPERANDO DIFICULDADES
A ONG Vivendo o Altruísmo (VOA) também atuou durante os incêndios ocorridos. Para o diretor Danilo da Silva Borges, trabalhar como voluntário foi uma experiência gratificante, mas, ao mesmo tempo, foi muito triste. “Posso dizer que foi uma mistura de emoções. A angústia e tristeza de ver a mata queimando, o medo constante em acontecer algum acidente comigo e com a equipe e, ao mesmo tempo, a felicidade em presenciar e fazer parte das conquistas diárias no combate ao fogo, como por exemplo a chegada das máquinas, aviões e helicópteros e controle das chamas. E por fim, por fazer parte da diretoria da ONG Voa na qual trabalhamos para despertar o altruísmo, foi gratificante ver o engajamento da população se voluntariando para enfrentar o fogo e doando os mantimentos necessários”, declarou.
Segundo ele, a principal dificuldade enfrentada pelas equipes foi o acesso aos locais de incêndio, devido ao relevo montanhoso da região. Outra dificuldade foi a comunicação, uma vez que o sinal de internet é muito fraco ou inexistente nas áreas atingidas, o que atrapalhava o envio da localização dos focos para a realização do combate aéreo.
CARA A CARA COM O FOGO
Um dos momentos mais marcantes e perigosos presenciados por Danilo ocorreu em um domingo à noite em Águas da Prata. “Eu estava em uma estrada de terra próxima a mata do bosque e de propriedades rurais, a qual continha uma plantação de eucaliptos. As labaredas eram muito grandes e partiam em direção aos eucaliptos e a uma propriedade com muita velocidade. Realizamos um pequeno aceiro devido à falta de maquinário. Diante do fogo que se aproximava, sabíamos que isso não era o suficiente e pensamos que não conseguiríamos impedir o fogo de se espalhar. Estávamos desesperançosos”, recordou.
Contudo, o alastramento pôde ser evitado com a chegada de reforços. “Chegou uma máquina enviada pela Prefeitura de São João da Boa Vista, nos dando condições de fazer um aceiro adequado. Em seguida, o Corpo de Bombeiros conseguiu nos enviar um caminhão-pipa e evitamos que o incêndio se propagasse”, disse o voluntário. “Esse momento me marcou muito também, pois vi alguns animais como lobos, cobras, ratos-do-mato e insetos fugindo desesperadamente do fogo”, completou.
CAMPANHA
Visando colaborar em futuras ações anti-incêndios, a ONG VOA iniciou uma campanha para arrecadar fundos para a compra de botas ao efetivo do Corpo de Bombeiros. Para mais informações sobre a ação, basta acessar as redes sociais da instituição.
“FOI UMA SEMANA SEM DORMIR”
A arquiteta e produtora rural Maria Luísa Borges Sorbello esteve como voluntária nas ações anti-incêndios realizadas na Serra da Paulista. “Foi uma decisão que tomei quando vi o fogo se espalhando muito rapidamente. Fui à Fazenda Curral de Pedra, onde a organização estava centralizada. Lá chegando me ofereci e acompanhei uma caminhonete com voluntários e bombeiros para combater o fogo numa área, formada de um lado por eucaliptos e de outro por mata nativa”, comentou.

“A experiência foi tensa. Muita fumaça, olhos lacrimejando, exigia força física e equipamentos. Estava com minha bomba costal e um abafador cedido pelos bombeiros. Foi muito difícil o combate devido às árvores próximas, galhos, folhas, tocos no chão e piso irregular. Além disso, havia árvores com fogo em seu interior, o que era impossível apagar”, relatou a voluntária, que também é vice-presidente da Associação Amigos da Serra da Paulista.
MOBILIZAÇÃO
Apesar de todo o terror causado pelas chamas, Maria Luísa conta que ficou impressionada com tamanha solidariedade que a causa despertou. “Foi muito bonito ver pai e filho, amigas e amigos, todos querendo ajudar. Muitos ajudaram. Foi impressionante mesmo”, disse.
“Foi muito cansativo, mas conseguimos conter o fogo para não avançar. Jovens trabalhadores rurais foram essenciais para conter as chamas que ameaçavam a mata da Fazenda Monte Alegre”, recordou a arquiteta. “Na noite anterior não dormimos. Descemos a serra e encontramos moradores rurais locais terminando apagar o fogo que já tinha queimado a Fazenda Rio Claro. Se não fossem eles, com calma e experiência, a tragédia seria bem maior”.

COOPERAÇÃO
Para a vice-presidente da Associação Serra da Paulista, a cooperação de todas as pessoas envolvidas foi fundamental para combater o incêndio. “Foi muito duro. Tive momentos de choro e desânimo. Foi uma semana praticamente sem dormir, vendo o fogo se aproximar. Sem chuva, se não fosse a união de todos – empresários, políticos, gente comum, rurais, enfim, todos ali, sem títulos ou nomes –, não teríamos conseguido!”, frisou. “Este fato serviu para mostrar que ainda somos seres que se sensibilizam com a tragédia. Temos espírito de cooperação e união. Somos, a maioria, movidos por solidariedade e compaixão”.
BRIGADAS
Com este episódio, um grupo de voluntários se uniu e formou a Brigada do Barranco. Além de atuar em ações anti-incêndios na região, eles pretendem também atuar no desenvolvimento de atividades socioambientais e de prevenção às queimadas. Para ajudar no custeio de equipamentos e outros gastos, uma vaquinha online foi criada para arrecadar doações. Além destes voluntários, um grupo de mulheres sentiu a necessidade de ajudar e criou a Brigada da Roça. Bastante ativas, elas pretendem trazer instrutores para formar brigadistas voluntários.














