POR MATHEUS LIANDA
“O skate traz muitas amizades, todos parecem ter uma energia muito leve. Sempre que você chega na pista cansada, estressada, você acaba se contagiando com as pessoas ao seu redor”. As palavras da estudante Letícia Zavarize, praticante regular de skateboard há cerca de oito meses, ajudam a entender um pouco do vasto universo que vai muito além do esporte, com músicas, símbolos, gírias, roupas, cultura e estilos próprios.
Apesar de terem uma comunidade bem estabelecida, skatistas são conhecidos pelo acolhimento a quem tem menos experiência. Durante os Jogos Olímpicos de Tóquio, em 2021, com a estreia do skateboard, era comum flagrar competidores torcendo para os oponentes conseguirem acertar as manobras. Por essas e outras, o skate é conhecido como “o esporte individual mais coletivo”.
“Comecei a frequentar o Half em 1995, a única pista de São João naquela época. Lembro que fui muito bem recebido no grupo, mesmo eles sendo mais velhos”, recorda o professor de skate Jean Felipe Le Sueur. “Graças aos skatistas locais com mais experiência, foi possível aprender muito e evoluir sempre mais. Sempre fui grato pelas amizades que cultivei, pela força e apoio que tive aqui durante minha infância e juventude. Isso me deu a base para abrir meu caminho e seguir no mundo do skate”.
Quase sempre presente nas sessões no Plaza, o bartender e consultor de bares e restaurantes Roberto Merlin, também conhecido como Chucky, reforça a ideia de união da comunidade. “Nos fortalecer sempre foi um dos pilares da cultura do skate, todos temos a ensinar e aprender”, defende. “Alguns parças têm dado aulas gratuitas para a molecada, acho sensacional. Deixo aqui um grande salve e admiração para o Felipão [Le Sueur] e geral da Organização Vibra Skate”, comenta sobre o projeto social conduzido por Jean Felipe.
A VIDA É DESAFIO
Em São João da Boa Vista, skatistas podem praticar oficialmente em dois skateparks: o Half, criado para os Jogos Regionais de 1991, um halfpipe no Centro de Lazer Jardim Leonor; e o Espaço Jovem Osmar Garcia, mais conhecido como Skate Plaza, construído em 2012. É a pista mais completa da cidade, com arquibancadas, banheiro, diversos obstáculos (alguns inéditos no Brasil na época da inauguração), paisagismo, grafite e comunidade ativa diariamente. No Parque dos Resedás, há uma pista fora de uso e projetos para a construção de um novo complexo esportivo. Embora atenda uma população muito além da comunidade do skate, sedie eventos culturais não necessariamente relacionados ao esporte e esteja em uma localização adjacente à Cidade das Artes, Departamento Municipal de Cultura, Biblioteca Jaçanã Altair e Escola José Peres Castelhano, o espaço sofre constantemente com vandalismo e descaso de indivíduos ignorantes sobre a importância da estrutura. “Muitos se assustam com os banheiros sucateados, lixo espalhado e, por vezes, até falta de torneiras para beber água”, relata Roberto. “E aí, galera? O que custa respeitar?”.

Não somente famílias, amigos e entusiastas do esporte se reúnem para aproveitar o recinto, mas o Plaza é fundamental também para o município e para a cena do skate, uma vez que a pista está incluída no Circuito da Federação Paulista de Skate (FPS) e já recebeu vários atletas renomados. “Kelvin Hoefler, Pâmela Rosa, Tiago Lemos, Giovanni Vianna, Ivan Monteiro, que junto a outros profissionais brasileiros nos representam lá fora e nas Olimpíadas”, cita Jean Felipe. “Isso fica na memória da comunidade, incentiva todos a crescer profissionalmente”.
LEVANTA E ANDA
A deterioração de um espaço público, principalmente uma praça de esportes, é comum; trincas, falhas na pintura, avarias em equipamentos, tudo isso é esperado, uma vez que o uso intenso durante as práticas desportivas favorece o desgaste. No Skate Plaza, porém, há o agravante do vandalismo, que acelera sobremaneira o prejuízo. Como mão de obra, equipamentos e materiais para reforma são caros e dependem de licitação, Jean Felipe, participantes do grupo Vibra Skate e a comunidade de skatistas organizaram um mutirão para revitalizar a pista em outubro do ano passado, com apoio da Prefeitura de São João. “O primeiro alvo foi o chão, a parte mais crítica; em alguns pontos, até um perigo para quem é menos experiente”, alerta. “Alugamos uma máquina e lixamos as trajetórias mais importantes, mais ou menos 45% da área total. O Departamento de Esportes forneceu as tintas e pintamos toda a pista”.

Com isso, os frequentadores organizaram uma competição no mês seguinte, o Vibra Skate Contest, com participação local e competidores de cidades como São Paulo, Santos, Poços de Caldas, entre outras. Além do intercâmbio de experiências entre os atletas, o evento fortaleceu a cena do skate em São João e captou recursos suficientes para uma segunda ação de melhoria no local, programada para este ano. “Isso vai permitir o aluguel da máquina para lixar, mas vamos precisar que o Departamento ofereça outra vez as tintas. Também estamos procurando apoiadores para fornecer a resina para finalizar o trabalho”, conta Jean Felipe. Ele acrescenta que há muitas outras necessidades: como melhora na iluminação da pista, reforma e iluminação dos banheiros, mais segurança no local além de reformas estruturais.


UM BOM LUGAR
O diretor municipal de Esportes, Marcelo Siqueira, relata que, além da manutenção periódica e limpeza diária, a Prefeitura de São João realiza a poda do gramado a cada 15 dias, e cita a iniciativa de revitalização. “Nos últimos meses, o espaço está recebendo melhorias, fruto de uma parceria com o grupo Vibra Skate, sob liderança de Jean Felipe Le Sueur”, conta. “Tintas foram cedidas e, inclusive, foi realizado um evento regional, em novembro de 2021, com o apoio do Departamento e Time São João”. Segundo ele, a pista não recebeu cuidados com a frequência necessária e, de fato, carece de uma reforma e investimentos significativos. “Para isso, precisamos de parcerias. Realizamos reparos nas acopladas dos banheiros, trocamos as torneiras e as lâmpadas queimadas da iluminação externa e dos banheiros. Estamos planejando investimentos em infraestrutura e segurança dentro do Plano Plurianual, por meio de parcerias e buscando recursos junto aos governos estadual e federal”.
Roberto Merlin destaca as vantagens de bons skateparks para assegurar sessões de qualidade tanto para iniciantes quanto para veteranos. “Espaços como o Plaza e o Half são excelentes para evoluir nas transições e pegar os macetes dos obstáculos para andar em outras pistas”, comenta. “E definitivamente é uma mão na roda para os campeonateiros [skatistas focados em treinar para competições oficiais]”.
DEIXE-ME IR
Jean Felipe Le Sueur nasceu em 1982, em São Paulo, e se mudou para São João com três anos. Ganhou seu primeiro skate em 1991 e logo se enturmou com a galera do Half, onde deu seus primeiros passos – e saltos. Oito anos depois, entretanto, passou a viver em uma cidadezinha no norte da Itália, Voghera, comuna na província de Pavia, região da Lombardia.
“O skateboard foi meu único meio de comunicação para me introduzir nessa nova sociedade e encontrar a minha tribo, pois não dava para ficar sem andar de skate”, relata. À medida que treinava e ganhava reconhecimento, tornou-se treinador nível 1 da Federação Italiana Esporte Rotelista (FISR, do italiano Federazione Italiana Sport Rotellistici) e em 2012 criou o projeto social Skate Farm, em San Giuliano, Alessandria. “É um projeto de grande sucesso, em contínua evolução, ainda hoje uma referência no norte da Itália”, informa. O objetivo é promover a inclusão por meio da prática do skateboard e todas as suas conexões. “É um skatepark aberto, uma escola de skate acessível para todas as idades, onde amadores e profissionais se reúnem para ensinar skate aos principiantes e acelerar o processo de aprendizagem, além de fortalecer a cena e demonstrar a importância desse esporte na sociedade”.
No Skate Farm são ministrados workshops para a construção de rampas e demais obstáculos, há laboratórios artísticos com oficinas de música e outras artes e uma horta social com ervas aromáticas para fins terapêuticos e culinários. “Dividimos a colheita entre todos os voluntários. Com os alimentos cultivados, captamos recursos organizando jantares populares e envolvendo todas as atividades com a estrutura, criando um ambiente esportivo e cultural”, conta.
Em 2020, Jean Felipe voltou para São João da Boa Vista e pôde conhecer o Skate Plaza, onde passou a ministrar aulas gratuitamente. “A recepção da comunidade de skatistas atual foi superpositiva. Depois de nos conhecermos melhor, começamos uma iniciativa voluntária para dar uma fortificada no cenário da cidade e melhorar nossa pista, que necessita de muita atenção”, afirma. “Agora, mais do que nunca, precisa ser reformada e, quem sabe, até ampliada”.
NÃO DESISTA AGORA
É difícil não cruzar com Roberto Merlin, o Chucky, no Skate Plaza; de duas a três vezes por semana, pelo menos, sua presença por lá é garantida. O skateboard se tornou uma paixão em 1998, inspirado pelas vezes em que assistiu ao seu primo mais velho, Paulo Henrique (ou “PH”), andar com os colegas. “Eles mandavam uns ollies ‘cabreiros’ por cima de cadeiras e obstáculos improvisados. Um dos amigos do PH descia o morro na ‘velô’ e puxava um slides gigantes, colado ao chão”, relembra. Embora curta os skateparks de São João, ele recomenda aos praticantes estarem sempre atentos a oportunidades ao redor. “Em geral, skatistas sempre ficam ligados quando estão pelas ruas, vai que encontram algum pico escondido, corrimão, gap… A cidade é uma caixinha de surpresas”, comenta, e destaca algumas locações preferidas: “São João tem alguns pontos clássicos, como a Catedral, o Galpão da Feira Livre e a Praça Joaquim José”. Para quem curte uma vertente ainda mais radical, também há bastantes opções. “Na Cidade dos Crepúsculos Maravilhosos não faltam ladeiras para os camaradas do downhill”, garante Roberto, sobre a modalidade em que os competidores descem um percurso íngreme na maior velocidade possível, muitas vezes com obstáculos.

“Uma época, me esfolava direto para o lado do Bairro Alegre descendo de long [modelo de skate adequado para downhill]. Ele pede atenção, porém, aos motoristas preconceituosos: “Nas ruas, sempre tem um ou outro que dá aquela fechada na maldade ou ofende gratuitamente”, alerta. E se você está começando, não perca o foco por causa de quedas. “‘Bora que bora’, cair faz parte do processo de aprendizagem. Comece aprendendo a rolar no chão; sério, o rolamento aplicado corretamente poderá te safar de fraturas ou outros prejuízos”, aconselha. “Tenha em mente que cada um tem seu tempo para evoluir, não fique se comparando aos outros”.
É O PODER
Letícia Zavarize sempre gostou de esportes. Quando o Plaza foi inaugurado, em 2012, ela ganhou um skate. Na época, tinha apenas oito anos e a presença predominante de meninos foi uma barreira. “Eu fiquei muito intimidada. Fazia meu pai acordar de madrugada para a gente andar bem cedinho, quando não tinha ninguém, mas não durou muito, porque ele trabalhava e não podia continuar indo naquele horário. Aí, eu desisti”.
Quando uma amiga começou a praticar skateboard com os irmãos, Letícia decidiu dar uma segunda chance para a atividade. “Encontrei vários amigos e amigas e finalmente perdi a vergonha e o receio de andar no meio de tanta gente, principalmente dos meninos”, recorda. “Foi quando comecei a frequentar direto a pista, gostando cada vez mais de aprender com as pessoas dali”.
Um dos grandes exemplos para a estudante é a atleta olímpica Rayssa Leal: “Ela provou para todos que qualquer um é capaz de andar, já que com aquela idade chegou tão longe”, analisa. “É uma inspiração para todos os praticantes, pois ela não desistiu e imagino que tenha sido tão assustador para ela quanto é para qualquer menina treinar um esporte majoritariamente praticado por homens, mesmo com todas as dificuldades que qualquer esportista enfrenta”.
Para a skatista, uma das melhores características é a comunidade. “Todo mundo ali fica disponível para ajudar em qualquer coisa que você quiser aprender, é o que eu acho mais legal”, relata. “Acabam sendo incontáveis os benefícios que o skate trouxe para a minha vida, mas, com certeza, uma mente e um corpo mais saudáveis estão no topo da lista”.
Se empolgou e quer praticar? “A minha maior dica pra quem quer começar é bem simples: não se deixe assustar. O maior obstáculo do skate é o medo”, diz Letícia. “Se você deixa seu corpo ser levado nos movimentos, consegue fazer qualquer coisa, seja descer uma rampa ou mandar uma manobra. Quando você vence o medo, você fica sem barreiras, sem limites”. E, segundo ela, o primeiro tombo já é esperado, então não se espante! “Virão muitos mais e você vai aprender a cair sem se machucar – ou quase nunca se machucar”, diverte-se. “E não olhe para quem já pratica como se nunca fosse conseguir fazer as mesmas coisas, com o tempo qualquer um aprende tudo o que quiser”.
UM BRINDE PRA NÓS
Com o ingresso do skate nos Jogos Olímpicos, Jean Felipe tem esperanças de que o esporte receba mais atenção do poder público. “O passo mais importante é investir adequadamente na infraestrutura do nosso esporte. Espero que valorizem mais a qualidade das pistas, suas manutenções, reformas e projetos de formação, dando qualidade e segurança para a evolução dos skatistas de nossas cidades”, declara.
Segundo o professor, há muitas companhias especializadas na construção de skateparks de alta categoria, cujos quadros são compostos por atletas profissionais. “É fundamental as administrações trabalharem com esse tipo de empresa e terem uma comunicação eficaz com os skatistas experientes locais”, assinala. “Espero que os projetos de incentivo e as escolinhas sejam mais apoiados por empresas locais do mesmo setor, porque ajudam a formar o grupo, que é a base essencial do espírito do skateboard”.

Roberto percebe maior adesão após as Olimpíadas. “Acho da hora ver uma movimentação acontecendo. Alguns pais investem no skate, e quando os filhos ganham confiança, os levam para a pista”, relata. O ganho de equilíbrio, coordenação motora, confiança e autocontrole estão entre os principais benefícios da atividade. “Nunca é tarde para começar, seja persistente. Ande sempre para se divertir, a cultura do skate vai infinitamente além de manobras ou estilo”.
Com algumas provocações, deixa alguns ensinamentos valiosos exercitados pela comunidade do skate. “Aprendeu algo novo? Tem tênis ou peças para doar? Lanche para dividir? Vai comprar pela internet ou nas lojas de skate de São João? Sempre que possível fortaleça os seus”, finaliza.
Em relação à inclusão feminina, Letícia está otimista. “O skate ainda tem um estereótipo bem masculinizado, mas as coisas melhoraram um pouco desde os meus oito anos, e tendem a continuar melhorando”, acredita. “No segundo contato, me senti muito bem entre todos. Como no último ano eu tive amigas para andar comigo, facilitou bastante, mesmo que a maioria lá ainda seja de homens”.













