É fundamental abandonarmos crenças e mitos associados ao comportamento suicida.

POR DANILO CICONI (Psicólogo e Educador)

“Setembro amarelo” é como é conhecida, no Brasil, campanha de conscientização e prevenção ao suicídio, baseada na iniciativa estadunidense “yellow ribbon” (“fita amarela”). É um convite do Centro de Valorização da Vida (CVV), em parceria com os Conselhos de Medicina e de Psicologia. No nosso país, o suicídio é considerado problema de saúde pública, devido a alta incidência deste acontecimento (e sua expansão sobretudo em adolescentes e jovens). De acordo com o CVV, não obstante, 90% dos suicídios podem ser prevenidos. Diante disso, nos meses de setembro, toda a sociedade (e, agora, de modo mais alargado, devido a mediação, por exemplo, das redes sociais) é chamada a refletir sobre estratégias de cuidado em Saúde Mental e prevenção do comportamento suicida.
A prevenção é possível conquanto tivermos informações mais acuradas acerca desse fenômeno e quanto melhor desenvolvermos virtudes importantes para a boa convivência humana, como a empatia e o acolhimento. Virtudes que devem ser cultivadas ao longo de todo o ano, dia a dia, não apenas no mês de setembro.
Em primeiro lugar, é fundamental abandonarmos crenças e mitos associados ao comportamento suicida. A vida real e o universo interior humano se expressam em múltiplas cores (há todo um espectro para além do amarelo).
A seguir, vamos refletir sobre alguns mitos que (como boa parte dos “mitos” da contemporaneidade) nos atrapalham a acolher e a ajudar quem realmente precisa:

1 “Quem vai se suicidar, não diz. Se diz, não vai, só quer chamar a atenção”.
Toda expressão de descuidado (comportamentos de risco, como por exemplo, o de abuso de substâncias psicoativas) ou de iminência de comportamentos autolesivos têm que ser levadas em consideração, sim. São, em base, pedidos de socorro. A crença de que “é pra chamar a atenção” só nos leva a negligenciar indicativos de que há um problema sério instalado naquele indivíduo ou comunidade. (Com sinceridade, ainda que discursos ou tentativas suicidas fossem realmente formas de “chamar a atenção”, seria considerado totalmente são alguém que recorre a condutas assim?). Cautela nunca é demais! Este é o princípio da prevenção e de toda intervenção bem sucedida. Entendo que, por vezes, nos sentimos impotentes, poucos capazes de contribuir de alguma forma com a pessoa que expressa a nós seus sofrimentos. E realmente o somos! Cansaço ou raiva também são emoções que nos visitam quando diante das dificuldades em cuidar de alguém. Daí a necessidade de não lidarmos com tudo sozinhos e, principalmente, de recorrer à ajuda especializada (profissionais da área da Saúde).

2 “A pessoa com risco de suicídio é quem tem depressão, quem está no fundo do poço”.
Ainda que suicídio e depressão possam andar costumeiramente juntos, isso não é uma regra. Ideação suicida (pensamento) não necessariamente é acompanhado por tristeza (emoção). Assim, tendemos a prestar atenção e oferecer ajuda às pessoas que se revelam tristes ou angustiadas. Mas não são essas as únicas que podem apresentar comportamento ou desejo de morte. O suicídio está muito mais associado a desesperança e a falta de sentido.
Há pessoas profundamente tristes, passando por dificuldades hercúleas, e que não apresentam nenhum indício de ideação suicida (e que nunca irão apresentar). Ao contrário, há pessoas que, á primeira vista, aparentam estar alegres, funcionais, cheias de energia. Trabalham, estudam, se relacionam, mas, apesar de não sentirem-se tristes, podem interpretar a existência como sem sentido (sem algo que faça “valer a pena” viver, que dê direção aos nossos dias…) ou que possam sentir-se sem esperança de conquistar seus objetivos, criarem experiências significativas etc. Em 1946, o psiquiatra austríaco Viktor Frankl lançou a obra “Em Busca de Sentido”, em que chama a atenção para esta realidade, narrando como prisioneiros em campos de concentração, passando pelas mais absurdas contrariedades, conseguiam encontrar desejo de vida, vencendo o vazio existencial. Descobrir o-que-dá-sentido-à-vida é a pedra fundamental das estratégias de prevenção em Saúde Mental.

3 “Pensamentos com relação a morte ou ao morrer são falta de fé, de Deus ou de amor à família”
Precisamos ter cuidado com esses tipos de crenças, estereótipos e preconceitos, pois eles apenas impõem sobre as pessoas culpas e cobranças. É claro que fé, espiritualidade e amor são valores protetivos, mas, às vezes, não são suficientes – e não é por falta de querer ou de boa vontade da pessoa. A etiologia (causas e origens) do suicídio ainda são um pouco nebulosas, mesmo para as Ciências do Comportamento e da Saúde. Há fatores genéticos, neurológicos, relacionados à estados de consciência e ao sistema perceptivo humano, nutricionais, ambientais, sociais e culturais associados à gênese da ideação ou do comportamento autolesivo.
Para quem experimenta tais coisas também não é um simples ato de vontade que resolve instantaneamente o problema. Há emoções intensas, ambíguas, variadas sendo vivenciadas. Medos, dúvidas, receios dificultam o pensamento lógico e a sã avaliação das circunstâncias da vida. Assim, é injusto (chegando a ser cruel) colocar sobre a pessoa envolta nessa experiência ainda mais pesos ou julgamentos morais. Tal atitude pode (e é quase certo que o fará) agravar o problema e tornar a possibilidade de suicídio ainda mais eminente (devido a um senso de desadequação que o indivíduo passa a experimentar).
Fé, espiritualidade e família podem colaborar com o acolhimento da pessoa e com a redução de sua dor ou de suas emoções ambivalentes. Mas, se mal direcionadas, podem agrava-las ainda mais. Reitero aqui a importância de virtudes tais quais a compaixão e a empatia.

4 “Suicídio é problema individual – da pessoa e da família”
Se é questão de saúde pública, o suicídio deve ser tratado com prioridade no âmbito das políticas públicas. Gestores de todas as instâncias de governo devem zelar por oferecer ao público atendimento em Saúde Mental gratuito e de qualidade. O Sistema Único de Saúde (SUS) realiza tal atendimento nas Unidades Básicas de Saúde (UBS), nos Ambulatórios de Especialidades (AME) e nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS). O Sistema Único da Assistência Social (SUAS) acompanha pessoas e famílias, em programas de fortalecimento de vínculo, de desenvolvimento de habilidades e de prevenção à condutas de risco, via Centros de Referência da Assistência Social (CRAS) e dos Centros de Referência Especializada da Assistência Social (CREAS). Devemos cobrar das autoridades o fortalecimento destes equipamentos da rede de atendimento psicossocial e da saúde.
Mais ainda, as políticas públicas devem cooperar para o fortalecimento de fatores de proteção ao suicídio. A falta de acesso a políticas de proteção social (educação, saúde, esporte, cultura, lazer, moradia, saneamento e renda) é fator de risco, visto que é a participação em tais instâncias (construindo senso de pertencimento à comunidade) que traz às pessoas experiências significativas e sentimento de apoio social, diante de eventos estressores.
Se o Setembro Amarelo não se traduzir em política pública, o cuidado em Saúde Mental não está sendo democratizado, não está atingindo a grande maioria das pessoas. Deste modo, não há real mudança no tecido social, na forma como as pessoas conduzem suas vidas e relacionamentos no cotidiano. Precisamos nos atentar para isso. Na área da Educação, superar tabus e trabalhar com temáticas que fortaleçam a autoestima e a auto eficácia dos estudantes também é extremamente protetivo e tão importante quanto necessário. Temas controversos, como a Educação Afetiva e Sexual e a promoção de Habilidades Socioemocionais, são fundamentais para que, ao longo da história de vida e desenvolvimento e, especialmente, na adolescência, a pessoa tenha um ego (eu) fortalecido – autoestima, autoconceito, auto eficácia, autonomia – e um sentido de vida.

4 “Vou abrir meu ‘inbox’ nas redes sociais e estar a disposição de quem quer que precise”
Pois bem, a boa intenção é louvável, mas é preciso ter cuidado. Diante da complexidade do fenômeno, conforme exposto anteriormente, é grande a possibilidade de não estarmos preparados para lidar de forma assertiva com tudo o que a pessoa do outro lado da tela ou da linha está nos expondo. É óbvio que devemos conversar sobre nossas emoções, escutar quem nos procura. Mas não podemos – e nem temos recursos para – nos responsabilizar pelo tratamento de alguém que experimenta situação tão delicada como a ideação suicida. Assim, encaminhar a pessoa à ajuda especializada (e, como vimos acima, há, inclusive, atendimento gratuito) é necessário.
Devemos tomar cuidado, ainda, com a promessa de manter segredo ou sigilo quanto ao que o outro nos diz. Claro que devemos tratar a informação com responsabilidade e delicadeza. Porém, estando diante de alguém que nos comunica intenção de morte, é preciso expor à pessoa, com total transparência, que um familiar ou responsável deverão ser comunicados do fato. Somente assim será possível realmente algum tipo de ajuda.
Naquele primeiro momento, a pessoa poderá não entender, relutar e, inclusive, ficar magoada com quem a ouve. Lembre-se que não está totalmente sã (em seu “juízo” perfeito). Assim, passado o conflito e tendo o indivíduo sido acolhido e recebido tratamento profissional, perceberá que a conduta de quem lhe escutou – e o encaminhou a familiares responsáveis e a profissionais – foi a mais acertada diante daquele momento de crise.

O Setembro Amarelo é momento para que cada um de nós reflita quanto às nossas experiências, emoções, comportamentos, e sobre o sentido da nossa vida. Mais que campanha de marketing ou de merchandising social, deve ser realmente ocasião de unir esforços, enquanto coletividade, para desenvolver ações que incidam diretamente sobre a Saúde Mental da população (sem negligenciar a necessidade de fortalecer os equipamentos públicos, assim como ONGs, grupos de voluntários e organizações educacionais que realizam atendimento acessível e de qualidade). A multiplicidade das cores que a experiência humana expressa exige de nós um Setembro Amarelo todo e cada dia.