POR MIRELA BORGES

O universo é infinito. É a soma do espaço, tempo, galáxias, planetas, estrelas… É, segundo o notável astrônomo Carl Sagan, “tudo o que existe, sempre existiu e sempre existirá”. E tudo o que há nele é formado a partir de conjuntos de partículas que, por sua vez, são unidas umas às outras por um elemento em especial: o Bóson de Higgs. Também conhecido como a Partícula de Deus e a Partícula Essencial, sem ele o universo seria apenas fragmentos flutuando por aí.

Para entender mais sobre esta importante partícula, devemos voltar a 1964, quando o bóson foi teorizado num estudo pelo físico britânico Peter Higgs. Em sua tese, sugeriu que “quando o Big Bang ocorreu, todas as partículas eram iguais e não possuíam massa. Porém, conforme o cosmos foi esfriando, um campo invisível se formou”. Denominado Campo de Higgs, segundo ele, “todas as partículas do universo só começaram a ter massa no momento em que entraram em contato com esse campo”. O bóson é a partícula que compõe esta esfera.

O Bóson de Higgs foi encontrado em 2012, pelos experimentos feitos no Centro Europeu de Pesquisas Nucleares, o CERN. E em 2013, Peter Higgs recebeu o Prêmio Nobel de Física. No ano da descoberta da partícula, Higgs entregou o prêmio de melhor trabalho em Física Experimental de Altas Energias para uma sanjoanense. A física Flavia de Almeida Dias, na época aluna de doutorado, apresentou seu trabalho na 69th Scottish Universities Summer School in Physics, na Escócia. A escolha da melhor apresentação foi feita por uma comissão formada por diversos especialistas da área, entre eles Peter Higgs. Ela trabalhou junto ao experimento Compact Muon Solenoid, CMS, do Large Hadron Collider, um dos experimentos responsáveis pela descoberta do bóson.

SONHO DE INFÂNCIA

A vontade de Flavia de se dedicar à Física veio desde criança, quando leu pela primeira vez o livro Cosmos, de Carl Sagan. Ela se interessou em saber cada vez mais sobre o universo e suas explicações e, por isso, em seus aniversários sempre pedia de presente livros sobre ciências. “Cada um desses livros é super fascinante. Poxa, eles contam a história do universo e da humanidade, como as coisas funcionam. Eu sempre falava para todos que queria ser física… astrônoma. E todo mundo falava: ‘ah é, e amanhã você vai querer ser arquiteta e depois de amanhã médica’. Mas eu nunca perdi o interesse e continuei lendo e fazendo projetos sobre”, explica.

(Foto: Arquivo pessoal)

Chegou a prestar vestibular para Engenharia, a pedido dos pais. Porém, em 2005, começou a graduação em física pela Universidade de São Paulo, a USP, e chegou a sofrer preconceitos dentro da faculdade. “Apesar de atualmente ser melhor do que na época em que algumas das minhas professoras estudaram, a física é uma área predominantemente masculina e por isso eu tinha que mostrar, em dobro, o motivo de estar lá, me esforçar muito mais para ser ‘levada a sério’. Mas isso depende da cultura. Infelizmente, o Brasil ainda é um país muito sexista, então não era incomum o pessoal fazer comentários maldosos quando algumas das meninas eram melhores do que os rapazes da sala de aula. Geralmente diziam que ‘só conseguimos ir bem em troca de favores sexuais”. Para combater estes tipos de preconceitos, ela acredita que quanto mais mulheres houver neste meio, melhor será para elas no futuro. Pensando nisso, participa de programas de incentivo e divulgação para meninas do ensino médio, em que cientistas da CERN participam de vídeo conferências com alunos de escolas, em todo o mundo.

CONQUISTAS

Em seu último ano de graduação, após conversar com um de seus professores, demonstrou interesse e teve a oportunidade de trabalhar em um projeto do Large Hadron Collider, LHC. Pelo bom desempenho, conseguiu uma bolsa para estudar e trabalhar no Centro Europeu de Pesquisas Nucleares, CERN. Após a graduação, se dedicou a iniciar o doutorado pelo Instituto de Física Teórica da UNESP e, novamente, conquistou uma bolsa de estudos para a Europa. Foi pesquisadora Marie Curie na University College London e trabalhou com pesquisas em associação com a California Institute of Technology, Caltech. Após isso, concluiu o doutorado na Suíça, já com oferta para trabalhar na Escócia. “Eu fiquei quatro anos lá, e nesta época consegui completar meu primeiro pós-doutorado na Universidade de Edimburgo. Na época, Peter Higgs era professor lá e foi quando ele recebeu o Nobel. A Universidade ficou em festa e sempre que ele ia nos visitar pedíamos autógrafos (risos). Posteriormente, morei três anos na Dinamarca e conclui o segundo pós-doutorado. Agora irei trabalhar como professora, na Universidade de Amsterdã”, relembra Flavia.

RECONHECIMENTO- Flavia de Almeida Dias e Peter Higgs durante a cerimônia do prêmio de melhor trabalho em física experimental de altas energias apresentado no 69th Scottish Universities Summer School in Physics, na Escócia. (Foto: Arquivo pessoal)

Seu campo de trabalho e pesquisa é a Ciência Fundamental e, como o próprio nome já diz, é de grande importância, como ela ressalta. “Tem muitas pessoas que pensam: ‘tá, mas para que isso me serve?’ Talvez, neste momento, não tenha muita serventia para todos, já que é uma descoberta relativamente nova. Mas, daqui a alguns anos, você irá ver a nova grande tecnologia que só foi possível baseada nesta descoberta. Assim, como quando Maxwell fez suas equações sobre eletromagnetismo, na época ninguém sabia para o que servia e, atualmente, ninguém vive sem. Ou quando Albert Einstein fez as teorias de relatividade e, hoje, o único motivo pelo qual o GPS funciona é por causa das correções da relatividade geral. Muitas destas coisas foram produzidas pelos trabalhos do CERN, tais como o World Wide Web (WWW), que é o sistema de informações usado para acessar sites na internet, o touchscreen e o Raio-X colorido em 3D. Nosso trabalho é muito importante para a sociedade”, conclui.