Por Daniela Prado
Certamente muitos admiradores da música erudita, que vivem em São João da Boa Vista e região, já assistiram a algum concerto didático realizado pela Orquestra de Câmara Stravaganzza, criada e dirigida pelo violinista Seir Piage.
Sempre levando ao público obras de Vivaldi e outros compositores clássicos, mesclada com informações a respeito deles e da música em si, a Stravaganzza se destacou por fazer música em igrejas, resgatando essa cultura e apresentando-a às novas gerações. Para se manter na estrada, muitos foram os desafios e dificuldades, mas um nome sempre esteve por trás de tudo, garantindo que, no final, os aplausos viriam: Vanessa Hanhela. Aos 31 anos, esta mineira de São Lourenço, que iniciou seus estudos de violino com 18 anos, lembra que essa é uma idade já considerada avançada para iniciar o aprendizado de um instrumento. “Porém, na música, iniciei com 12 anos, através do canto coral e flauta doce. O violino sempre foi o instrumento que eu quis tocar, desde muito pequena. Creio que a influência tenha sido por ouvir muita música clássica em casa”, comenta Vanessa.
Como naquela cidade não havia professores do instrumento, seu ingresso no Conservatório Estadual de Música Juscelino Kubitschek de Oliveira, situado na cidade mineira de Pouso Alegre, no curso de técnico de violino, só ocorreu quando Vanessa se mudou para Paraisópolis (MG). “Lá estudei por 4 anos. Depois disso, sempre mantive os estudos através de aulas particulares”, completa.
SURGE A ORQUESTRA
Orquestra de Câmara Stravaganzza surgiu no caminho de Vanessa em 2014. “Quando ingressei no grupo, assumi a liderança administrativa do mesmo e fundei a entidade Associação Vereda Cultural, organização sem fins lucrativos, para poder receber patrocínios e doações, constituindo a personalidade jurídica do grupo”, recorda a violinista. E prossegue que, naquele mesmo ano, inscreveu o primeiro projeto na Lei Rounet, com o objetivo de profissionalizar o grupo, que antes ensaiava apenas informalmente, entre amigos.
“Em 2015 fomos contemplados por um edital do Banco do Brasil e também obtivemos o patrocínio do Bradesco e da Mineração Curimbaba, que se mantiveram até 2018”, relembra. Atualmente Vanessa é violinista da Orquestra Vereda Cultural, presidente da associação de mesmo nome, ficando responsável por toda a administração e elaboração dos projetos da Orquestra — o que envolve captação de recursos, gerenciamento dos projetos, prestação de contas e divulgação, entre outras atividades.
“Minha rotina é bem intensa, pois gerir um projeto é uma atividade muito dinâmica, temos que estar em contato com muitas áreas e prestadores de serviços. Tenho que redigir releases para imprensa, materiais de divulgação, administrar redes sociais, além de todo controle financeiro: pagamento dos profissionais, captação de recursos, entre outros”, confessa a violinista, pontuando que, como o patrocínio não é integral, ela precisa cumprir muitas funções, que poderiam ser delegadas a funcionários, caso tivessem o recurso completo.
Vanessa produz materiais e está em constante contato com potencias patrocinadores ou parceiros, para garantir a execução dos projetos, além de cumprir todas as atividades bancárias e operacionais. “Estudo violino e participo de um coral em São João, além dos ensaios da Orquestra”, frisa ela.

EM BUSCA DE NOVIDADES
Quanto às ideias originais para realizar um concerto nesta ou naquela cidade, a violinista conta que surgem através da definição dos objetivos estatutários do grupo — para atividades educacionais, elabora-se projetos específicos, como as aulas de música e os concertos didáticos de formação de plateia; para atividades artísticas sempre se busca uma novidade no conceito dos concertos, para que o grupo possa, cada vez mais, cumprir a missão de difundir obras-primas.
“Com a evolução do nosso trabalho, buscamos ampliação da área das cidades que recebem os concertos. Com isso, crio projetos que possam ser atrativos para cidades do interior, como o que estamos agora em processo de captação, intitulado Concertos pelo Caminho da Fé, que consiste na realização de apresentações em cidades integrantes do circuito turístico do Caminho da Fé”, enfatiza. E prossegue contando que, quando o recurso já está captado, os contatos são feitos sempre diretamente com as igrejas, para fechar as apresentações.
“Quando ainda temos que buscar o recurso, contatamos as prefeituras e empresas de cada cidade. Não é nada burocrático, é somente trabalhoso e necessita de persistência”, Vanessa observa. Em relação ao repertório escolhido para cada evento, a violinista esclarece que o dos concertos artísticos da Orquestra é, em sua maioria, erudito, do período barroco, clássico, romântico e moderno.

“Nossa missão é difundir a música de câmara e as obras primas de grandes compositores. O repertório é definido conforme o tempo de ensaio que o patrocínio permitirá realizar. Por exemplo, se temos mais de três meses para ensaiar e cumprir os concertos, podemos executar peças mais elaboradas e de difícil execução, bem como introduzir novas obras no repertório da orquestra. Quando acontece de termos menos tempo de ensaio, optamos por executar obras que já fazem parte do repertório do grupo, pois já foram estudadas e praticadas pelos integrantes”, aponta ela, lembrando que o encerramento das apresentações, normalmente, é com a obra de algum compositor brasileiro, o que já se tornou de praxe na Orquestra. O local escolhido não influencia na escolha do repertório, mas a época do ano (Natal, aniversário ou morte de um compositor) contribui na definição deste, com intuito de homenagem.
“Nossa missão é difundir a música de câmara e as obras primas de grandes compositores. O repertório é definido conforme o tempo de ensaio que o patrocínio permitirá realizar.”
“Já nos Concertos Didáticos, destinados para crianças e jovens das escolas, além do repertório erudito, executamos músicas contemporâneas, como pop, funk, rock, para mostrar a eles que uma orquestra pode executar qualquer estilo musical, além de aproximá-los dos instrumentos de orquestra, despertando-lhes o interesse pelo aprendizado de algum instrumento”, conta.
Apesar de uma rotina repleta de compromissos e atividades, Vanessa conclui que o esforço vale muito a pena “Vale pela realização pessoal e pelo prazer que a música traz, mas principalmente por poder contribuir com a humanização da sociedade, promovendo cultura, possibilitando momentos de lazer para as pessoas, além de contribuir com a educação de muitos jovens”, considera Vanessa. E reforça: “Essa atuação na sociedade é o que me move, é o que realmente faz valer a pena cada sacrifício, cada dificuldade e cada ‘não’ que recebemos. É cada sorriso da plateia que me estimula a correr atrás de tudo isso. A minha missão é poder contribuir de alguma maneira para uma comunidade mais humana e creio que estou fazendo a minha parte, o que me deixa muito contente. Não posso deixar de agradecer a todas as pessoas e empresas que nos apoiam, pois um sonho, um projeto, só pode ser realizado através da união de pessoas”, enfatiza.
Para Vanessa, a música é um sonho infinito, que ela pretende perseguir por toda sua vida, assim como a saúde depende de hábitos alimentares saudáveis e exercícios físicos diários. “A música para mim é uma atividade que me faz bem, me causa um bem estar, por isso faço questão que esteja presente sempre em minha rotina. A emoção de tocar ou cantar é impagável, mas essa emoção, para mim, é muito maior num grupo”, finaliza ela, reconhecendo que tocar ou cantar sozinha, para ela, não faz muito sentido, até porque, a seu ver, a música foi feita para a socialização, para unir pessoas, por isso a energia é muito maior quando se toca em conjunto.
STRAVAGANZZA E VEREDA CULTURAL
Orquestra de Câmara Stravaganzza passou por modificações em seu nome e atualmente é conhecida por Orquestra Vereda Cultural. Vanessa Hanhela explica que essa mudança no nome aconteceu no final de 2018, devido à troca do Diretor Artístico, que era Seir Piage. “Percebemos que o nome Stravaganzza estava muito vinculado à imagem do antigo maestro e solista e aproveitamos o momento para alterá-lo, o que, aliás, já era uma ideia a ser colocada em prática. Modernizamos o nome, pois o antigo apresentava uma certa dificuldade de pronúncia e memorização por parte de empresas (potenciais patrocinadores) e também do público. Com o novo nome, privilegiamos a nossa língua portuguesa, ampliando, ainda, a atuação da entidade cultural que mantém a Orquestra — a Associação Vereda Cultural. O nome Vereda Cultural traduz o que acreditamos: o caminho é a cultura!”, esclarece Vanessa.
Seir Piage também saiu da Orquestra, por decisão própria e motivos pessoais, sendo substituído pelo músico e regente de formação André Russo Rodrigues, o qual assumiu a Direção Artística. André já atuava como pianista da Orquestra e agora assumiu também a regência do grupo, o que Vanessa, por considerá-lo um excelente músico e profissional, avalia que vai engradecer ainda mais o trabalho do grupo, mantendo a qualidade que já possuía.












