POR REINALDO BENEDETTI
São João da Boa Vista é privilegiado por ter tido grandes homens públicos, preocupados com seu povo e o desenvolvimento local. Entre este seleto grupo está Octávio da Silva Bastos, pernambucano que adotou São João da Boa Vista como sua cidade do coração. E todo homem público tem a sua marca sendo a de Octávio Bastos, sem dúvida, a Educação.
ORIGEM
Octávio da Silva Bastos nasceu em Recife, no estado de Pernambuco, em 31 de março de 1906. Jamais imaginaria que, cinquenta anos após seu nascimento, viria se tornar um dos mais importantes personagens de São João da Boa Vista. Filho de Arnaldo Olinto Bastos e Laura da Silva Bastos, formou-se em 1928 pela Faculdade de Direito do Recife. Já nessa época, funcionário da Companhia de Seguros Phoenix Pernambucana, demonstrava grande liderança e capacidade empreendedora. Ainda no Nordeste, o jovem jurista participou da Revolução de 1930, que levaria ao poder Getúlio Vargas. Ele ingressou como voluntário junto às tropas que marcharam para Alagoas, Sergipe e Bahia, sob o comando de famosos nomes, como Carlos de Lima Cavalcantti, Juracy Magalhães e Juarez Távola. Mais tarde, Juarez assumiria o Ministério da Agricultura e dos Transportes e, Juracy, seria declarado interventor da Bahia.

Já Carlos de Lima, assumiria como interventor no estado de Pernambuco, nomeando o jovem Octávio como terceiro promotor público da Comarca do Recife e Secretário de Estado. Em 1934 foi nomeado o primeiro promotor e membro do Conselho Penitenciário de Pernambuco. Em 1939, Octávio Bastos é nomeado promotor público adjunto da Justiça do Distrito Federal e se muda para o Rio de Janeiro. Hospedado no Flórida Hotel, onde residia, tem o primeiro contato com a mulher que seria sua futura esposa e apresentaria São João da Boa Vista a ele.
Margarida Maria Noronha, sanjoanense que estava com a família de passagem pelo Rio de Janeiro, conhece Octávio Bastos nesta ocasião. Pouco tempo depois, selariam sua união na Igreja de Nossa Senhora Aparecida, em Aparecida do Norte. Casados, Octávio e Margarida viveram no Rio de Janeiro por mais dez anos, mas o vínculo com São João estava selado.
CONTATO COM SÃO JOÃO
É por intermédio da esposa Margarida e amigos que Octávio Bastos tem o primeiro contato com São João da Boa Vista, encantando-se pela cidade. Tanto que, mesmo exercendo suas atividades na então capital federal, Octávio Bastos fez questão de que suas duas primeiras filhas, Laura e Celina, nascessem em São João. Apenas a terceira filha, Margarida Maria Noronha Bastos, nasceu no Rio, em 1948. “Eu acho que foi realmente uma relação de amor que ele sentiu, pois gostou daqui. Nós nascemos aqui e ele começou a conhecer todo mundo. No fim ele conhecia mais gente que minha mãe”, lembra a filha Laura Maria Noronha Bastos. Após passar por grave problema de saúde, que o leva a Poços de Caldas para se tratar, finalmente Octávio mudou-se para São João, em 1956.
No comando da Comércio Indústria S. Bastos Ltda, uma empresa algodoeira, Octávio demonstra forte responsabilidade nos negócios, conquistando a confiança de empresários e fazendeiros locais. Além disso, Octávio gerenciou também a Algodoeira Santa Helena, de propriedade da família de Christiano Osório de Oliveira Filho, o famoso “Bilu”.
“Ele era uma pessoa de muita capacidade e que também transmitia muita confiança. Então, tudo o que ele convidava a gente para fazer, que pensava que devia ser feito, ele conversava com os amigos e conseguia o apoio”, disse, na ocasião do centenário de Octávio Bastos, Christiano Osório de Oliveira Neto, amigo e também fundador do UNIFEOB (Centro Universitário da Fundação de Ensino Octávio Bastos).
ENTRADA NA POLÍTICA
Dono de forte personalidade, falava arrastado e ostentava extrema simplicidade. E esse jeito do pernambucano não demorou a conquistar a amizade e confiança do sanjoanense. Tanto que, em 1959, foi convidado por José Ruy de Lima Azevedo para entrar na política. Naquele ano o então PTB (Partido Trabalhista Brasileiro) e a UDN (União Democrática Nacional) eram os partidos de maior destaque na cidade, com fortes divergências entre ambos.
“São João viveu um momento conturbado e uma grande parte da população juntou-se para que o Zé Ruy fosse candidato a prefeito pela UDN. E uma noite, na sede da Associação Rural, da qual José Ruy era o presidente, ele disse que aceitaria se Octávio fosse o vice. Caso contrário, não iria. Aí fomos para a casa do Dr. Octávio e lá, diante dos apelos dos companheiros, ele concordou em ser o vice. Imediatamente ele saiu e foi na Associação Rural, onde os dois foram aclamados candidatos”, contou Clineu Junqueira, outro parceiro de fundação do UNIFEOB. Assim, ele e o amigo José Ruy foram eleitos para comandar São João. E o desenvolvimento da cidade passa a ser uma das prioridades de sua vida. Octávio Bastos muito colaborou com a administração de José Ruy, se tornando candidato natural à sucessão, nas eleições de 1963, que foram por ele vencidas, tendo como vice o jornalista Welson Barbosa.
EDUCAÇÃO
Já na Prefeitura, Octávio começou a deixar a sua principal contribuição para a cidade, que foi a aposta na educação como principal meio de transformação. Homem simples, nutria forte convicção de que o desenvolvimento de qualquer povo passa, sem dúvida, pelo seu perfil educativo e cultural. Assim, soma esforços e decide criar a Faculdade de Ciências Econômicas de São João da Boa Vista, hoje UNIFAE (Centro Universitário das Faculdades Associadas de Ensino), onde também foi professor. “Quando a FAE foi criada, havia muita dificuldade para se estudar. Eram poucas as instituições no Estado de São Paulo e era só para quem tivesse maiores recursos. Então, era difícil para o jovem da época estudar. A criação da FAE abriu uma perspectiva para muitos. Ela foi a primeira instituição da cidade e uma das primeiras regionais. Portanto, teve um impacto regional muito forte e começou a definir um perfil para São João como polo regional”, contava o saudoso e então diretor da instituição, professor João Batista Ciaco, por ocasião do centenário de Octávio Bastos.
E Octávio não se deu por satisfeito, como um visionário da área educacional decidiu mobilizar forte grupo de sanjoanenses em torno de um grande objetivo: criar a Fundação Sanjoanense de Ensino, hoje UNIFEOB. Sem fins lucrativos, acreditava que a instituição teria o objetivo de ampliar oportunidades, educando gerações e contribuindo com o melhor desenvolvimento e formação da cidadania.
Padre José Benedito de Almeida David, professor e ex-reitor da PUC Campinas, ressaltou o olhar de Octávio para o social, no momento da criação da instituição. “A preocupação em oferecer oportunidade do ensino vinculada não a uma iniciativa meramente de caráter privado, mas a uma fundação, realmente foi uma grande conquista para a cidade. A educação sempre foi uma coisa muito presente na preocupação do Dr. Octávio”. A fundação foi oficialmente criada em 1965, com o lançamento da primeira turma da Faculdade de Direito, já em 1967.

O PREFEITO
Octávio começou a ganhar expressão e a confiança da cidade com suas iniciativas e realizações, em especial com a criação das duas instituições de ensino superior. E isso o levou, ainda em 1965, a ser eleito prefeito de São João, com grande apoio popular. Seu mandato foi marcado pela conquista para a cidade de grandes empresas de expressão nacional e a consequente geração de muitos postos de trabalho.
Outra criação importante de Octávio Bastos foi a Academia de Letras da cidade, a segunda do interior do Estado. Além de ter criado o centro de Integração Comunitária (CIC) e bairros inteiros, como a Vila 1º de Maio. Sidney Beraldo, outro conceituado homem público sanjoanense e hoje conselheiro do Tribunal de Contas do Estado, conta o que o marcou em Octávio Bastos. “Como prefeito, ele sempre levou em conta uma coisa que me marcou muito, a gestão com austeridade, o cuidado na aplicação do dinheiro público. Outra coisa importante, a capacidade de liderança do Dr. Octávio. Ele tinha essa característica, de não impor nada, um homem que sabia ouvir e entender as pessoas e com isso ele formava um time que trabalhava ao seu lado para que suas ideias fossem colocadas em prática”, ressalta Beraldo.
FAMÍLIA E AMIGOS
Octávio Bastos sempre demonstrou enorme gratidão pela forma como foi acolhido na cidade e pelo apoio que recebeu dos sanjoanenses. Sua esposa Margarida contou que todas as ações e criações do marido foram a forma que ele encontrou de retribuir não apenas a acolhida, mas a forma generosa e sincera que a cidade lhe dedicava. “Então ele procurou deixar alguma coisa de bom para São João, como compensação pela recepção que teve aqui. E ele conseguiu deixar”, dizem os familiares. Lucilla Martarello Astolpho, professora e ex-diretora do Curso de Filosofia, afirma que ele sabia que a faculdade ia crescer dessa forma. “Ele plantou uma sementinha e dessa sementinha, que era boa, surgiram as outras sementes, que são todas essas faculdades que estão ai”.

Olympio Guilherme Cabral, que foi amigo e conviveu com Octávio Bastos, ressalta que o pernambucano tinha uma visão diferenciada e que sua grande contribuição foi, sem dúvida, a educação. “Na minha época havia uma única oportunidade para estudar aqui, e era particular. Era um curso de contabilidade. Ou era esse curso ou enxada. Não tinha opção. E o Octávio transformou São João ao criar as duas faculdades”, diz Cabral, que reforça que Octávio Bastos era uma pessoa extremamente simples, amável e que tratava a todos igualmente.
João Otávio Bastos Junqueira, o primeiro neto e atual reitor da UNIFEOB, ressalta que os valores do avô o marcaram profundamente e, até por isso, decidiu dar continuidade ao seu legado. “Ele era muito sensível, muito humano, sempre se vestiu muito simples, tinha gosto simples, nunca foi de esbanjar. Me marcou muito a simplicidade dele”, diz. João Otávio assumiu, então, em 1999, o comando da Fundação em um momento difícil da sua vida. “Eu estava indo para os Estados Unidos, estava fazendo meu doutorado na Unicamp e foi uma decisão difícil deixar isso de lado para assumir a instituição. E o que pesou foi esse lado emocional, de saber que, de alguma forma, eu estava contribuindo para dar continuidade a uma obra que meu avô ajudou a fazer”, reitera.
E o atual reitor afirma que o espírito do avô era o que realmente a UNIFEOB vive hoje. “Uma instituição comunitária, sem fins lucrativos, que atende milhares de alunos carentes aqui na região, que dá apoio a um monte de ações sociais, culturais, esportivas. Acho que esse é o espírito que temos que dar continuidade. E por isso é importante não só um lugar para que as pessoas estudem, mas onde elas tenham continuidade naquele projeto, naquele sonho inicial”.
“Ele plantou a semente em solo fértil e ficou trabalhando para que aquela semente que floresceu se transformasse num carvalho de tronco sólido, que desse origem às faculdades que todos nós, hoje, admiramos em São João”, aplaude o amigo Celso Ribeiro, que também foi professor da Faculdade de Direito. Apesar de ainda com disposição e desejo de levar avante muitos projetos para a cidade, a saúde de Octávio Bastos estava fragilizada e, em março de 1985, veio a falecer na cidade de São Paulo. Porém, seu legado e exemplo de vida permanecem vivos e fincados para sempre na história de São João, influenciando muitos jovens a também lutarem pela transformação, por meio da Educação.









