POR DUDA OLIVEIRA

O aquecimento global é debatido há anos e um estudo publicado na revista científica Nature, em 2016, apontou que o aquecimento começou há cerca de 180 anos. O paleontólogo da Universidade Livre de Berlim e coautor do estudo, Jens Zinke, conta que as pesquisas mostram que o aquecimento da Terra, desde o início, tem relação com o aumento de concentração dos gases do efeito estufa, uma consequência direta da revolução industrial.

Outra preocupação ambiental é o esgotamento dos recursos naturais utilizados na indústria como um todo, e também utilizados para a sobrevivência como um todo, como água potável, mineração, extração de petróleo, consumo de animais, entre outros. Em 2019, a humanidade atingiu o limite de recursos três dias antes que em 2018; e mais cedo do que em toda a série histórica, medida desde 1970.

A preocupação ambiental não fica no foco somente de grandes indústrias agropecuárias, por exemplo. Essa preocupação migrou também para a indústria têxtil, responsável por grande parte do consumo de água. De acordo com dados do Water Footprint, são necessários 2720 litros de água para produzir uma única camiseta de algodão, pois a moda utiliza a água desde a irrigação das plantações de fibras naturais, lavagem dos fios e tecidos, até a contaminação pelas microfibras.

IMPACTO AMBIENTAL

Além do extremo consumo de água, a indústria têxtil, 7ª maior economia do planeta, também é responsável por grande parte da emissão de carbono, lixo e contaminação das águas. O estudo A new textiles economy: Redesining fashion’s future, lançado pela Ellen MacArthur Foundation, com apoio da estilista McCartney, mostra que a cada segundo um caminhão de lixo de sobras de tecido é queimado ou descartado nos aterros sanitários. Somente em São Paulo, vão para os aterros sanitários, por dia, cerca de 26 toneladas de resíduos têxteis. A produção global de roupas mais que dobrou desde o ano de 2000. Somente em 2014 foram produzidos 100 bilhões de peças e, em contrapartida, 80% dos resíduos têxteis destinados aos aterros sanitários poderiam ser reutilizados. Além disso, estima-se que dobrando a vida útil de uma roupa, de um para dois anos, é possível reduzir 24% das emissões de CO2 no ano. A indústria de tecidos, além de contribuir com grande parte da poluição e, consequentemente, com o aquecimento global, também é responsável por grande parte do trabalho análogo à escravidão. Um estudo feito na Índia, com 1452 trabalhadores do setor do vestuário, mostrou que 99,2% deles trabalham em condições de trabalho forçado.

FONTE DE MICROPLÁSTICOS – O microplástico é um dos principais poluentes globais dos oceanos, e 34,8% dele vêm das nossas roupas e materiais texteis. Este dado é do relatório Primary Microplastics in the Oceans: a Global Evaluation of Sources [Microplásticos Primários nos Oceanos: uma Avaliação Global das Fontes], que como descrito no título, investiga as principais fontes de produção e descarte deste material no meio ambiente. (Foto: Reprodução Internet)

QUEM FAZ MINHAS ROUPAS?

Foi pensando na sustentabilidade da moda que o Fashion Revolution foi criado. Um conselho global de líderes da indústria da moda sustentável, ativistas, imprensa e acadêmicos, após o desabamento do Rana Plaza, que abrigava confecções de roupas em Bangladesh. O desabamento ocorreu em 2013, mais de 1.134 pessoas morreram e 2.500 ficaram feridas. O desabamento do Rana Plaza revelou ao mundo o descumprimento com normas básicas de segurança no país e o pior lado da indústria têxtil.

O movimento surgiu com o objetivo de aumentar a conscientização dos impactos ambientais e sociais da moda em todas as fases de produção, até o consumo, além de exigir transparência na indústria e nos negócios. Atualmente, o Fashion Revolution está presente em 92 países, onde desenvolve ações mobilizadoras e incentiva consumidores a questionarem marcas, trazendo a reflexão: “quem fez minhas roupas?”.

O Fashion Revolution promove a Semana Fashion Revolution, que convida pessoas a refletirem sobre a procedência das roupas e também a questionar e exigir transparência. “Não podemos mais aceitar que os direitos dos trabalhadores sejam negados, precisamos olhar para o que é prioridade: quem está por trás”, explicou Fernanda Simon, coordenadora do Fashion Revolution no Brasil.

Durante os anos do movimento, alguns avanços foram notáveis, como a inspeção de mais de 1.300 fábricas em Bangladesh, desde a tragédia do Rana Plaza, além do aumento de 77% do salário-mínimo da área pelo governo de Bangladesh, que agora é de $ 68 por mês.

“Não podemos mais aceitar que os direitos dos trabalhadores sejam negados, precisamos olhar para o que é prioridade: quem está por trás”, explicou Fernanda Simon, coordenadora do Fashion Revolution no Brasil.

Além disso, 2.416 marcas responderam à hashtag #whomademyclothes e compartilharam informações sobre sua cadeia produtiva. Entre as grandes marcas, 150 delas publicaram onde são feitas suas roupas. Mais de 70 marcas se comprometeram a participar da campanha Detox, do Greenpeace, que consiste em eliminar produtos químicos das cadeias de produção de moda. Juntas, essas empresas representam 15% da produção têxtil global.

No Brasil, o movimento existe há cinco anos e a Semana Fashion Revolution envolveu aproximadamente 25 mil pessoas em 50 cidades do Brasil. Desses, 48 representantes estavam presentes, além de 55 embaixadores atuando em 114 escolas e universidades, que ficaram comprometidos com a organização de 815 eventos. Aproximadamente 500 marcas de vestuário se engajaram na campanha.

Um dos meios utilizados para reaproveitar resíduos descartados pelas fábricas ou consumidores é o Upcycling, que consiste no processo de transformar produtos ou resíduos descartados em novos materiais ou produtos de maior valor, uso ou qualidade. Neste processo são utilizados materiais no final da vida útil, na forma em que estão para criar uma utilidade, diferente da reciclagem, onde os produtos são reprocessados para serem transformados em matéria-prima. Mesmo utilizando resíduos já existentes, produtos Upcycling acabam sendo mais caros que as fast fashion, pois essas utilizam da exploração da mão-de-obra barata, sem considerar direitos trabalhistas básicos e salários justos.

As fast fashions se baseiam na extração de quantidades excessivas de recursos naturais para a obtenção de matérias-primas em uma escala de produção rápida e de grandes quantidades, por isso esse segmento da moda leva as maiores críticas na pauta de moda sustentável.

REPENSAR O CONSUMO

O movimento Fashion Revolution busca que consumidores reflitam sempre antes de comprar algo, fazendo-se as seguintes perguntas: preciso mesmo deste item?; posso pegar emprestado de alguém?; caso precise mesmo comprar, pode ser em um brechó? Ou de segunda mão? Caso nenhuma das outras opções seja plausível, posso comprar de uma marca com princípios em que acredito? Um produtor local, com utilização de matéria prima consciente, que pague bem sua cadeia e gere impacto social na minha comunidade?
O movimento indica tomar a decisão sobre a compra somente depois de responder essas perguntas, para um consumo consciente.

REPENSAR O CONSUMO E GESTÃO DE RESÍDUOS – Os resíduos são uma constante problemática na área da moda – em qualquer nível de trabalho. Podem ser resíduo de papel na hora do design, de tecidos na hora do corte, de fibras na tecelagem, e até mesmo na hora da reciclagem. Um dado de 2012 da Associação Brasileira da Indústria Têxtil (ABIT) aponta que 12 toneladas de resíduos têxteis são geradas por dia, só no Bom Retiro em São Paulo. (Foto: Reprodução Internet)