POR GUSTAVO OLIVA

Um homem além do tempo: é assim que as pessoas que trabalharam com Dilo Gianelli, à frente da produtora de filmes em São João da Boa Vista, definem o diretor de cinema e produtor cinematográfico. Apaixonado por fotografia, Dilo nasceu nesta cidade em 24 de dezembro de 1922 e foi com o pai que aprendeu a arte de fotografar, ainda muito jovem. Fez curso de cinema por correspondência no Instituto de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, nos EUA, mas foi em 1938, aos 16 anos, que teve seu primeiro contato com a profissão, ao acompanhar as filmagens de um documentário sobre as comemorações da elevação de São João da Boa Vista à condição de Freguesia.

A partir de então, a paixão pelo cinema só aumentava. Em 1945 realizou seu primeiro filme, O Dia da Vitória, no qual registra as comemorações do fim da Segunda Guerra Mundial. É nesse momento que nasce a Gianelli Filmes do Brasil, uma produtora que ainda iria fazer mais sucesso do que o esperado.

UMA NOVA ERA

Com a empresa consolidada na cidade, Dilo Gianelli importa da Alemanha uma filmadora Arriflex, com três objetivas, que era a paixão do profissional, e começa a filmar diversos documentários, quase sempre encomendados pela prefeitura municipal ou comércio local. O cineasta e professor, doutor de cinema e psicanálise, Igor Alexandre Capelatto, explica que o período em que Dilo começou a produção foi um dos mais importantes da história brasileira, marcado pelos críticos como boom do cinema. “Nesse momento temos filmes importantes da produtora Atlântida e da companhia Vera Cruz, com obras de pornochanchadas, comédias, filmes comerciais e, em sua grande parte, filmes cults. A maioria era produzida em São Bernardo do Campo, São Paulo, alguns no circuito do Rio de Janeiro e outros no nordeste”, explica.

Capelatto ainda destaca que começa a nascer, nesse mesmo período, a nouvelle vague – movimento artístico do cinema francês que se insere nos anos sessenta – e que, apesar das produções de Dilo não serem oficialmente catalogadas nesse movimento, ele abraça essa nova linguagem que é importante para a construção do seu próprio mercado cinematográfico .

Muito amigo do diretor de cinema Vitor Lima Barreto (1906-1982), natural de Casa Branca, Dilo participou, em 1953, das filmagens de O Cangaceiro, uma das obras do cineasta. As gravações aconteceram em Vargem Grande do Sul e Gianelli colaborou na parte fotográfica.

O CANGACEIRO

O Cangaceiro foi um dos maiores sucessos do cinema brasileiro e foi o primeiro filme do Brasil a conquistar as telas do mundo, com a direção de Lima Barreto, diálogos criados por Rachel de Queiroz e fotografias de Dilo Gianelli. A produção é considerada como o melhor filme da Companhia Cinematográfica Vera Cruz e foi o primeiro a receber prêmio no Festival de Cannes, na França. O filme também foi lançado no exterior como The Ninth Bullet, e exibido em 80 países.

Com enredo baseado na figura de Lampião, o bando de cangaceiros do capitão Gaudino (Milton Ribeiro), semeia o terror pela caatinga nordestina e é nesse contexto que a professora Maria Clódia (Vanja Orico), raptada durante um assalto do grupo, se apaixona pelo pacífico Teodoro (Alberto Ruschel). O forte amor entre os dois gera grande conflito no bando.

BEM DE PERTO

Gregório Pasquini, morador de Vargem Grande do Sul, acompanhou bem de perto toda a gravação de O Cangaceiro. Isso porque as cenas foram feitas na fazenda do seu pai. Ele conta que os cavalos, as cocheiras e os pastos que aparecem no filme eram todos da sua propriedade. “Foi uma satisfação muito grande ver a terra onde nasci e cresci estar nas telas dos cinemas do mundo todo. Eu assisti e fiquei muito feliz ao ver o nosso chão”, recorda.

Apesar de não lembrar de detalhes específicos de como tudo começou, devido o tempo, Gregório lembra que muitos profissionais integravam a equipe e que ficaram por um período extenso realizando as atividades. “Eles utilizaram nossos campos e coqueiros para imitar o nordeste e também um ‘buracão’, que fazia parte da vila cinematográfica, onde dormiam os capangas. Ainda temos esses traços da época guardados em nossa fazenda”, conta.

INÍCIO DAS PRODUÇÕES

Com a experiência adquirida, Gianelli produz seu primeiro longa, João Negrinho, baseado na obra de Jaçanã Altair, que conta a trajetória e a amizade de dois garotos, um negro e um branco, em uma fazenda durante o período pré-abolicionista. A amizade surgiu pelo esforço de um padre que prega a igualdade das raças e o combate às crueldades contra os escravos. Depois de finalizado nos estúdios da Cia. Vera Cruz, o longa estreou na cidade de São João da Boa Vista em 4 de dezembro de 1957, no Cine Avenida (situado no prédio da atual Lojas Pernambucanas).

Já no ano seguinte, Dilo lança seu segundo longa, Chão Bruto, com a participação do ator Lima Duarte, que retrata o embate violento entre grileiros e posseiros no sertão paulista, motivado pela construção de uma ferrovia que aumenta o valor das terras a sua volta.

Para Capelatto, Dilo levou uma nova estética ao cinema, com um ponto de vista diferenciado por meio da narrativa e do contexto. “Quando ele fala de escravidão, é a própria escravidão que conta a história, ou seja, a situação histórico-cultural se torna personagem e isso eu acho fantástico, fenomenal e de extrema importância para a produção brasileira. Alguns grandes cineastas se inspiraram nessa produção, como Arnaldo Jabor, por exemplo”.

CHÃO BRUTO – Em 1958, Dilo lança seu segundo longa, Chão Bruto, com a participação do ator Lima Duarte, que retrata o embate violento entre grileiros e posseiros no sertão paulista, motivado pela construção de uma ferrovia que aumenta o valor das terras a sua volta.

GENTE BOA!

Gianelli volta a se dedicar a documentários curtos, feitos por encomenda e, em 1979, registra seu último filme, Gente Boa!, que nesse ano de 2019 completa 40 anos de produção. A trama contava a história de boias-frias sanjoanenses (trabalhadores que migram de uma região agrícola para outra) e o seu dia a dia de trabalho rural. A produção recebeu menção honrosa no Festival de Bilbao, na Espanha, e ganhou as salas dos cinemas em todo país, além de conquistar o importante selo da Embrafilme, que contribuiu para que o documentário fosse exibido pelos cinemas de todo o país.

Na década de 1970, Zeza Freitas e Clóvis Vieira aproximaram-se de Dilo pela paixão que tinham pela fotografia. O convite para que participassem dos filmes chegou logo em seguida, convite este que aceitaram com grande alegria. Zeza foi atriz do filme e relembra os dias de gravação com os trabalhadores rurais na época. “Era um curta que mostrava a exploração do trabalhador, e o Dilo conseguia retratar todos os detalhes. Uma das cenas mais marcantes pra mim, foi ver os boias-frias abrindo as marmitas que levavam para o almoço, ao som do trem. Ele conseguiu um efeito genial, que marcou a todos que assistiram”, conta.

Clóvis Vieira, diretor de arte desta produção, também relembra dos anos em que atuou na Gianelli Filmes do Brasil e explica que as principais produções, na época, foram curtas-metragens e comerciais para cinema em película 35 milímetros. “Entre esses comerciais, destaque para o da Casa de Móveis Beraldo, quando o então futuro vereador e prefeito sanjoanense, Sidney Beraldo, foi o garoto propaganda do filme de 30 segundos”, relembra.

IMPROVISO E EMPENHO

Em 1978, o trio filmou Mangalarga e viajou a Salvador (BA) para captar imagens em uma fazenda do município. Seguindo na mesma linha, Brasil Rodeio foi a produção seguinte, também sobre criação de cavalos. Ambos os curtas-metragens participaram do circuito nacional que a Embrafilme impunha aos exibidores. O improviso tomava conta das produções naquele tempo. Zeza fazia os contatos com proprietários de lojas para comerciais ou com prefeitos e seus assessores para as filmagens. Já, Clóvis, atuava na direção de cena e dos atores, sempre acompanhado dos dois colegas de trabalho, e também fazia o corte e edição das imagens do “copião” em preto e branco, que chegava de São Paulo.

GENTE BOA! – A produção da Gianelli Filme contava a história de boias-frias e o seu dia a dia de trabalho. O filme recebeu menção honrosa no Festival de Bilbao, na Espanha, e ganhou as salas dos cinemas em todo país. Na foto, Dilo Gianelli (com sua Arriflex) e o jovem Clovis Vieira, dirigindo a cena.

TEMPOS DIFÍCEIS

Na década de 70, os recursos tecnológicos e financeiros eram escassos. Então, para realizar os comerciais, a produtora contava com o patrocínio de lojas, enquanto que, para os curtas-metragens, as prefeituras das cidades retratadas financiavam. Não havia verbas da produtora direcionadas para esse trabalho e, muitas vezes, algumas prefeituras voltavam atrás no contrato e não disponibilizavam o dinheiro, o que interrompia a produção.

Era preciso contar com a ajuda dos amigos para um bom resultado final, então a equipe convidava colegas com aptidão para atuarem, estando à frente dos comerciais, o que era motivo de muita festa para aqueles que recebiam o convite. Clóvis define a experiência que teve na equipe de produção como maravilhosa. “Eu me sentia fazendo parte de um seletíssimo grupo que trabalhava com cinema neste país. Aprendi muito com o Sr. Dilo, que nos tratava como filhos, como melhores amigos. Fazíamos viagens constantes a São Paulo, à Embrafilme, na entrega de prêmios do cinema nacional e na censura da época. Era emocionante quando o Cine Ouro Branco exibia algum comercial e o público reconhecia na tela algum sanjoanense mais popular, que ali estava atuando”, recorda.

Zeza Freitas e o marido, Ronado Marin, que também trabalhou com Dilo, contam que o profissional fez com que o telespectador entrasse em cena. “Ele fez com que as pessoas que assistiam seus filmes começassem a fazer parte daquilo, estivessem nas telas do cinema. O Gianelli foi pioneiro nesse belíssimo e importantíssimo trabalho que fez lotar as salas dos cinemas e fez o sanjoanense se apaixonar por filmes produzidos em sua terra”. Igor Capelatto afirma que era possível encontrar muitas produções no interior do estado, mas lembra que a cultura, na época, não chegava à população como hoje, principalmente pela falta de internet. “O produtor do interior não tinha um público formado, equipe para atuar, atores e empresas patrocinadoras. Então, eles trabalhavam com o povo e isso era difícil. Os equipamentos também eram muito caros. Os cineastas até possuíam condições financeiras de produzir, de buscar rolos de filmes, câmeras, só que não tinham condições de armazenar esse material, pois era delicado”, lembra.

Capelatto ainda explica que começou a surgir um público que se interessava por um cinema novo, então essas iniciativas de produtores, de produzir e levar filmes ao interior, começou a crescer muito. “Eram iniciativas importantes, porque faziam parte de uma ferramenta cultural que ia além da música, da dança e do teatro. O cinema era muito popular, as pessoas iam às galerias, restaurantes, bares e ali passavam produções independentes, em praças, em teatros, em cinemas; e o público frequentava”, conta.

TÉCNICA DE GRAVAÇÃO

José Claudio Tavares Sibila trabalhou na Gianelli Produções há cerca de 40 anos e atuava na parte técnica. Ele conta que o processo, na época, era completamente diferente dos dias atuais. “Primeiro era feita uma cópia do documentário em filme preto e branco, depois pegávamos emprestada uma sala do cinema de São João e testávamos na tela para conferir e fazer as marcações necessárias. Em seguida, fazíamos a gravação magnética, voltávamos ao cinema e projetávamos novamente o filme”, lembra. Mas esse era apenas o começo de tanto trabalho que ainda vinha pela frente. Sibila conta que depois de todo esse processo, eles percorriam mais de duzentos quilômetros até a capital para fazer a gravação do documentário no formato óptico, em um estúdio de uma gravadora de São Paulo. “Essa transformação de magnético para óptico era trabalhosa, porque era preciso passar de um gravador de rolo grande para uma película de filme e, ainda, corrigir qualquer detalhe que sofresse mudanças”, lembra.

CONTRIBUIÇÃO CULTURAL

A história da Gianelli Filmes do Brasil é rica em fatos, em pessoas e em momentos históricos. Os familiares e colegas de trabalho possuem um acervo formado por registros importantes, não apenas de São João, mas das cidades retratadas nos curtas-metragens e nos comerciais para o cinema. “E pensar que tudo isso foi realizado num tempo em que nem havia o videocassete! O Sr. Dilo não o conheceu, faleceu antes de sua invenção”, lamenta Clóvis.

Gianelli ainda teve seu nome registrado no livro Dicionário de Fotógrafos do Cinema Brasileiro, de Antônio Leão da Silva Neto, entre 470 profissionais que possuem suas trajetórias registradas no arquivo online. O cineasta Igor Capelatto analisa que a atitude de Dilo, em valorizar o interior e a literatura, foi fundamental para o desenvolvimento dessas produções. “Ele levou o interior para frente, para aparecer na mídia, no mercado cinematográfico cultural do Brasil e até fora do país. Gianelli também valorizou muito a literatura em seus filmes e conseguiu colocá-la em pauta”.

MERCADO PUBLICITÁRIO – Mesmo com recursos tecnológicos e financeiros escassos, na década de 70, Dilo Gianelli produziu diversos vídeos para lojas e empresas de São João da Boa Vista. Seu grande cliente, no entanto, foi a Kodak do Brasil, que encomendou à Gianelli Filmes um vídeo promocional.

Para ele, a forma de trabalho de Dilo também chamava a atenção, já que ele valorizava todos os profissionais que com ele trabalhavam. “Uma contribuição que destacava todas as funções de sua equipe, em alguns cartazes a gente via o nome do figurinista, do contrarregra, do iluminador, do cenógrafo e são coisas que hoje nós vemos apenas em créditos bem sutis e em letras miúdas. A partir dele, o diretor Nelson Pereira e o cineasta Glauber Rocha também começaram a valorizar esses profissionais, e essa iniciativa veio do interior, veio de Dilo Gianelli”, relembra.

ADEUS À PRODUÇÃO

Em 21 de outubro de 1981, aos 58 anos de idade, Dilo Gianelli faleceu em São João da Boa Vista. Como reconhecimento ao seu talento e pioneirismo, hoje é nome de rua e de uma sala do Theatro Municipal da cidade. Para Capelatto, Dilo foi um pioneiro que criou situações e espaços para a produção, além de conseguir passar pela censura da época, antes mesmo da ditadura, pois já existia um código de ética de censura cinematográfica para todas as artes e produtos, e essa censura fazia com que demorassem para autorizar o filme e sua exibição. “Gianelli conseguia uma sala de cinema no interior, mas hoje esses cinemas querem exibir filmes americanos ou produções de canais de televisão; e é o que o público também quer assistir. Os cineastas, hoje, não têm o mesmo espaço que o Dilo tinha, então temos que batalhar para retomar a força de antigos cineastas, para que o cinema atual volte a ter o potencial que um dia já teve”, finaliza.

“Com a morte do Sr. Dilo, creio que morreu, também, essa forma de fazer filmes aqui na cidade. Hoje, as câmeras de vídeo e os telefones celulares fazem isso com muita presteza”, revela Clóvis. “A Gianelli Filmes do Brasil foi um marco referencial para o cinema, não só da nossa cidade, mas de todo o país. Nós tivemos o privilégio de ter, em São João, um ser humano como Dilo. E se engana quem pensa que todo seu trabalho terminou com seu falecimento, até porque foi ele quem fez com que eu, apaixonada por tudo que aprendi, continuasse a seguir seus passos e, principalmente, suas dicas e lições de vida”, agradece Zeza Freitas.