Corpo-seco
A ilustração do que seria o “Corpo-seco”. De acordo com a história, ele foi rejeitado por Deus e pelo diabo. Até mesmo a terra, onde havia sido enterrado, o expulsou. Com o corpo em estado de decomposição teve que sair de seu túmulo e começou a viver como alma penada, vagando pela Serra da Paulista.
Por Mateus Ferrari Ananias

Histórias sobre fantasmas e assombrações existem desde que os humanos desenvolveram a linguagem, há pelo menos um milhão de anos atrás. Para se ter uma ideia, a mais antiga referência registrada a aparições de espíritos vem da Suméria, na obra literária Épico de Gilgamesh, que data do século VII A.C.

Para os mais descrentes, tratam-se apenas de lendas. Outros, mais desconfiados, acreditam piamente que espíritos vagam por ai. Claro que uma parte significativa desses relatos é identificável como fenômeno natural; outra parte, no entanto, está no limbo de nosso conhecimento.

E, por mais estranho que pareça, nossa cidade possui um hall de histórias e causos espalhados por suas esquinas, muitos dos quais até já se perderam na tradição oral. Verdade ou mito, a questão é que muitos lugares de São João guardam histórias, no mínimo, curiosas. Conheça algumas das mais famosas:

O THEATRO MUNICIPAL

Como todo antigo teatro, esse também tem suas histórias sobre assombrações. O Theatro foi construído em 1913, projetado pelo arquiteto italiano J. Pucci e construído por Antonio Lanzac. Conta-se que ainda hoje é possível ouvir conversas, fortes barulhos no palco, passos misteriosos e vozes que chamam pessoas pelo nome.

Esses misteriosos sons são atribuídos aos espíritos das mais diversas companhias que já se apresentaram lá. Atrás do palco, em uma parede de tijolos original do teatro, é possível ver gravados centenas de nomes de pessoas que já se apresentaram ali durante esses mais de cem anos de existência do local.


A SANTA CASA

Hospitais nunca são lugares agradáveis. Mas, a Santa Casa de Misericórdia Dona Carolina Malheiros possuía uma antiga história sobre um quarto em específico. Nele, segundo contam, todas as pessoas que eram internadas — mesmo com problemas simples — acabavam indo a óbito. A história era levada tão a sério que o Dr. Francisco Maringolo, renomado médico sanjoanense, negava-se a internar pacientes naquele quarto.

Até hoje enfermeiras e funcionários comentam que, principalmente nas alas mais antigas, são ouvidos estranhos ruídos, passos e vultos são vistos nos corredores, durante a noite.
Nos fundos do hospital existe também um cemitério, onde estão enterradas algumas irmãs da Ordem do Sagrado Coração de Jesus, que trabalhavam na Santa Casa.


O CORPO SECO

De acordo com a lenda, o corpo-seco foi um fazendeiro que também morava na Serra da Paulista. Ele era tão ruim que maltratava familiares e realizava sadismo com escravos. Após sua morte — de acordo com a lenda — ele foi rejeitado por Deus e pelo diabo. Até mesmo a terra, onde havia sido enterrado, o expulsou.

Com o corpo em estado de decomposição teve que sair de seu túmulo e começou a viver como alma penada, vagando pela serra.


A DAMA DA SERRA E A MÃE DO OURO 

Outras histórias mais antigas falam sobre o espírito de uma mulher, que era muito importante e famosa, que morava naquela região. De fato, nos arredores de São Roque da Fartura morava uma espanhola de nome Carmem Maldonado. Pelo menos uma vez por ano vinha, a cavalo, até São João. Era muito alta e de físico volumoso.

Mudou-se menina para lá, e enviuvou cedo. Possuía veia política e era muito respeitada, sendo consultada em casos de conflitos ou problemas. Ela também promovia festas religiosas e liderava a população do bairro.

Segundo histórias de seus moradores, desavisados ainda podem encontrar com seu espírito vagando pela serra, em forma de uma bela mulher ou mesmo de uma bola luminosa. Outros, interpretam essa aparição como a Mãe do Ouro.

Antes da ocupação portuguesa e espanhola, a serra era habitada pelos índios Caiapós, os quais, com a chegada do homem branco, viram-se forçados a migrar para as barrancas do Rio Pardo. Conta-se (embora não se possa provar) que desde aquela época já existiam relatos sobre luzes misteriosas e bolas de fogo. Existe uma variação do mito em que esta bola de fogo se transforma numa bela mulher loira, capaz de refletir a luz do sol em seu vestido de seda branco, com o qual que voa pelos ares. Essa pode ser a origem dos relatos sobre o espírito da mulher que vaga pela Serra.

Desde o século XVI há citações a bolas de fogo por conta dos índios. Seu primeiro registro em texto, vem da obra do padre jesuíta José de Anchieta.


A CASA BANCÁRIA CHRISTIANO OSÓRIO

O sobrado, construído por Nicolau Rehder em 1890, foi reformado e ampliado em 1910, tornando-se a residência e, posteriormente, sede da Casa Bancária Christiano Osório (fundada em 1914). Um fato relevante é que a Casa Bancária se funde a outras instituições, formando do BCC – Banco Central de Crédito. Após a saída da família Osório da sociedade, um novo sócio da vizinha Poços de Caldas chega: a família Setubal.

Mas, retornando aos fantasmas, afirma-se que o casarão é assombrado pelas almas dos fazendeiros que perderam tudo por conta de três conjunturas desfavoráveis à cafeicultura: o final de Primeira Guerra Mundial, a geada de 1918 e a crise de 1929. Esses elementos contribuíram para a execução judicial de muitos clientes da Casa Bancária, que obtiveram crédito através de contratos de hipotecas e penhor.

Em 1960 o casarão tornou-se residência oficial do bispo e sede da Cúria da Diocese. No térreo, o local abriga também o Museu de Arte Sacra.


A DAMA DE BRANCO DO PALMEIRAS

Histórias sobre damas de branco são recorrentes em diversas culturas, e um denominador comum é o tema da perda ou traição de um marido ou noivo. Por aqui não é diferente.

Reza a lenda que, durante um baile promovido pelo Palmeiras Futebol, em sua sede (é provável que essa história faça referência à antiga sede social do clube, localizada no que era a então Sociedade Italiana, atual Clube Luis Gama), o jovem conheceu uma linda garota, toda vestida de branco.

Segundo a história, este jovem passou a noite toda conversando com a bela dama e ofereceu-se para acompanha-la até sua casa, ao final do baile. No momento em que passavam pela porta principal do cemitério, a jovem desapareceu no ar. O rapaz então correu apavorado, em busca de ajuda.

Esse não é o único relato sobre a aparição de damas de branco na cidade. Nas regiões rurais, existem outras histórias envolvendo mulheres que, supostamente, morreram de forma trágica ou sofreram alguma espécie de trauma durante a vida.

A tradição reza, também, que avistar um desses fantasmas é sinal de que alguém na família morrerá.


FAZENDA CACHOEIRA

Construída em 1871, a Fazenda Cachoeira tem um casarão com mais de 40 quartos e remete ao tempo dos escravos (a Abolição só aconteceu em 1888 e, provavelmente, mesmo depois de oficialmente encerrada, ainda deviam existiam escravos na fazenda).
Dentro da casa permaneceram alguns móveis da época e utensílios de cozinha. Atualmente a fazenda também é administrada pela Diocese, a qual realiza, no local, quermesses e retiros espirituais.

Participantes desses retiros relatam que, por vezes, é possível ouvir sons estranhos, como barulhos de correntes, passos no assoalho e cavalos em volta da casa.


PRAÇA CEL. JOAQUIM JOSÉ

Muita gente não sabe, mas, até 1894 o cemitério da cidade era onde hoje está localizada a Praça Cel. Joaquim José, Praça Roque Fiori e a escola Cel. Joaquim José. Conhecido como Cemitério Municipal da Fábrica da Igreja Matriz, somente entre maio de 1887 e janeiro de 1892, o local recebeu 1.151 cadáveres. Devido à superlotação, em 1894 foi inaugurado o atual Cemitério São João Batista, para onde trasladaram as ossadas e sepulturas perpétuas.

Relata-se que na década de 1950, por volta da meia noite, diariamente um cavaleiro era visto pela população cruzando o cemitério. O mistério não durou muito: tratava-se de um homem que morava no Morro da Bomba e trabalhava em uma fazenda, na estrada velha São João  / Aguaí.

Se esse caso foi resolvido, o mesmo não pode ser dito das supostas aparições noturnas de uma menina que caminhava cantarolando e segurando uma boneca, desaparecendo próximo ao terminal rodoviário. As aparições são atribuídas a Mirian Terezinha Joaquim, falecida em 1987.

Outro detalhe: existia também o chamado Cemitério do Rosário, tradicionalmente utilizado para sepultar escravos, negros libertos e também os nãos católicos. Ele situa-se onde hoje é o atual Bairro do Rosário. Não há relatos de que as ossadas tenham sido retiradas do local