POR DUDA OLIVEIRA

Em todas as espécies de animais mamíferos, o único meio natural de nascimento é o parto vaginal, no qual depois do encaixe do feto na pelve da fêmea, a vagina dilata e a cria é expulsa, gerando uma nova vida. Entre os seres humanos, porém, principalmente no Brasil, o processo biológico vem sendo preterido há décadas.

O parto vaginal ou natural vem sendo trocado pela cesariana, termo que tem origem etimológica na palavra latina caedere, que significa corte. Segundo fontes historiográficas, remete também ao nascimento do general romano Júlio César, que foi retirando do ventre da mãe, após a morte dela.

A despeito de ser verdadeira ou não, esta história revela muito sobre a prática criada para salvar vidas de mães e crianças que, por alguma anormalidade, não puderam passar pelo parto comum. A primeira cesariana de que se tem notícia, em que a parturiente e o bebê sobreviveram, foi realizada em 1337 e, desde então, foi sendo aperfeiçoada até se tornar o método de nascimento mais usual na América Latina, atualmente.

O Brasil é o segundo país que mais faz cesáreas no mundo, atrás somente da República Dominicana. Os procedimentos cirúrgicos representam 57% de todos os partos realizados no Brasil, extrapolando muito a recomendação de um máximo de 15%, preconizada pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

A cesariana é uma cirurgia que deveria ser feita apenas no caso de extremo risco, mas não é a prática comum dos médicos, principalmente no atendimento particular, que registra um percentual de cesáreas 84% superior aos partos vaginais.

O procedimento cirúrgico tira o protagonismo da parturiente e o transfere ao médico. A constância da prática fez com que as mulheres de hoje tenham medo de ter seus filhos longe do hospital e sem assistência médica. Esta consciência, que vem ganhando força nos últimos anos, motivou um movimento de humanização do parto, para que a mulher volte a assumir seu protagonismo e garanta o respeito ao seu corpo e mente.

Muitas vezes, no ambiente hospitalar, ocorre a chamada violência obstétrica, praticada pelo médico contra a paciente, e que pode ser caracterizada pela indução à cesárea ou utilização da Manobra de Kristeller, usada para facilitar a expulsão do bebê do útero, já proibida em diversos países pelos danos que pode causar. Outro procedimento comum é a episiotomia – o famoso pique para ampliar a largura do canal vaginal – seguido do ponto do marido, método de sutura que aperta a entrada da vagina, com o intuito de aumentar a satisfação sexual do homem. Todos eles realizados sem o consentimento da mulher.

PARTO EM CASA- Segundo a empresária Bruna Sant’ Angelo Doretto, esta foi a melhor experiência que teve: “Se tivesse que escolher onde faria meu parto novamente, repito mil vezes que seria domiciliar. Recebi amor, carinho, comida e bebida. Foi um parto respeitoso, tudo no meu tempo” (Foto: Duda Oliveira)

Outro tipo de violência obstétrica é a privação de alimentação da parturiente durante o trabalho de parto, que muitas vezes dura horas, podendo se estender por dias. Na internet, pode-se encontrar diversos relatos de mulheres que foram privadas da ingestão de qualquer alimento ou bebida, inclusive água, até o nascimento do bebê, mesmo em casos de parto normal. Outros relatos falam da exigência médica de que a parturiente se mantenha numa única posição, que intensifica a dor das contrações, sem necessidade.

COMBATER ESSA VIOLÊNCIA

O parto humanizado vem para combater a cesariana compulsória e a violência obstétrica, tornando o processo menos doloroso e traumático para mães e bebês, além de devolver o protagonismo à mulher e permitir que ela se sinta completamente à vontade para tomar decisões e agir da forma mais confortável possível durante o trabalho de parto.

Em relação ao bebê, já foi comprovado que o contato pele a pele com a mãe, imediatamente após o nascimento e ao menos uma hora, a chamada golden hour, tem inúmeros benefícios para a saúde do pequeno. Como era praxe, o bebê era arrancado da barriga da mãe, era sacudido, levado para ser medido, pesar, pingava-se nitrato de prata nos olhos, aspiração das vias aéreas e muito mais. Outra questão é o corte imediato do cordão umbilical. As novas recomendações são as de que espere o cordão parar totalmente de pulsar antes do corte, pois evita-se, assim, várias doenças, entre elas a anemia. No parto humanizado, o bebê, seja de cesárea ou normal, vai direto para o colo da mãe.

A empresária Bruna Sant’ Angelo Doretto (33) foi a primeira mulher a fazer um parto humanizado domiciliar em Vargem Grande do Sul. Ela conta que esta foi a melhor experiência que teve: “Se tivesse que escolher onde faria meu parto novamente, repito mil vezes que seria domiciliar. Recebi amor, carinho, comida e bebida. Foi um parto respeitoso, tudo no meu tempo. Até agora ainda me emociono ao lembrar do momento único que vivemos. Meu marido recebeu nosso filho, que chegou cheio de saúde, e o entregou nos meus braços. Eu o acolhi com muito amor e gratidão. Não posso acreditar que consegui, que tudo aquilo que sonhei se tornou real, porque eu realmente pari meu filho sozinha, ninguém o arrancou de mim. Foi mágico, nunca mais vou me esquecer.”

Bruna revelou que havia sofrido violência obstétrica nas outras duas gestações e que não queria passar por isso novamente. “Entre uma conversa e outra, vendo experiências de outras pessoas, acabei conhecendo o Projeto Renascer em Casa e as enfermeiras obstétricas Fernanda e Sinara, que se dedicam a incentivar as mulheres para o parto natural. De início, planejamos que elas me auxiliariam quando entrasse em trabalho de parto até o momento de ir ao hospital, mas depois decidimos que o bebê nasceria em casa. As pessoas diziam que isso era loucura, mas eu estava certa do que queria. As enfermeiras me explicaram como tudo aconteceria no dia do nascimento e a porcentagem de riscos. Estava ciente de que, eventualmente, teria de ir ao hospital, mas tinha tanta certeza que tudo daria certo, que me senti segura e fortalecida. Acho que essa força veio por saber que tinha o apoio da minha família, que estava assistida por uma equipe 100% especializada, além de estar no conforto do meu lar, onde tudo fluiu lindamente”, explica a empresária.

Bruna recorda que, infelizmente, não foi esta a experiência que teve nas duas gestações anteriores. “O Theo, hoje com 7 anos, nasceu de uma cesária agendada. Com o primeiro filho é tudo novo, você entra em um mundo desconhecido, então fica presa ao sistema. Fui em jejum como me pediram e correu tudo bem. A saga começou na volta pra casa, com o desconforto dos pontos, a dificuldade pra andar, a dependência de outras pessoas. Tudo isso contribuiu para um quadro de depressão pós-parto. Foi horrível, mas venci”.

“O Felipe, meu segundo filho, hoje com 4 anos, nasceria de cesária agendada também, mas um dia antes minha bolsa rompeu e fui às pressas para o hospital. Chegando lá, avisaram que eu tinha dilatação e ele nasceria de parto normal. Eu pirei, não estava nos meus planos, disse que não queria, mas tinha a impressão de falar com as paredes. Senti dores por horas, sem ninguém da minha família, praticamente jogada, implorando por um gole de água, mas ninguém me ouvia, foi um total desrespeito. A única coisa que eu pensava é que ia morrer”, lembra Bruna.

Tendo passado por experiências tão diversas, hoje a empresária lamenta que a maioria das gestantes não tenha acesso ao parto humanizado, mas acredita que isso esteja mudando: “Em algumas cidades, os hospitais já estão se preparando. Vi uma reportagem recente sobre uma maternidade do Ceará que contratou doulas, fiquei muito feliz. Meu desejo é que todas as mulheres tenham seus bebês como desejam, que sejam respeitadas e que levem essa experiência pra vida.”

Com a segurança de quem sabe o que é melhor para a mulher, Bianca finaliza com um conselho: “Os estudos mostram que é muito seguro ter seu bebê em casa, se você tiver um pré-natal sem riscos. Portanto, pesquise, busque uma equipe especializada e viva esse momento único. Nada é mais lindo e maravilhoso que parir seu filho. Deus nos deu esse dom, não deixe que o medo te faça desistir. Acredite!”

MUDAR A PERCEPÇÃO

MUDAR A PERCEPÇÃO – O parto natural era considerado por muitas mulheres um evento traumático, de puro sofrimento, pois a mãe não tinha nem mesmo o direito a um acompanhante. O parto humanizado busca mudar essa visão, usando uma serie de técnicas não invasivas para alívio de dor e, até mesmo a possibilidade de analgesia, no caso da dor ser insuportável. Ele pode ser realizado tanto em casa, quanto em hospitais; embora o acompanhamento médico seja sempre recomendável para evitar complicações (Foto: Duda Oliveira)

O parto natural era considerado por muitas mulheres um evento traumático, de puro sofrimento, pois a mãe não tinha nem mesmo o direito a um acompanhante. O parto humanizado busca mudar essa visão, usando uma serie de técnicas não invasivas para alívio de dor e, até mesmo a possibilidade de analgesia, no caso da dor ser insuportável. Ele pode ser realizado tanto em casa, quanto em hospitais; embora o acompanhamento médico seja sempre recomendável para evitar complicações.