Poraceba
Em 10 de maio de 1944, o jornal O Municipio abriu a sua edição estampando na capa em letras garrafais: “Protestamos! Poraceba?… Nunca!”
Por Francisco Arten

No dia 31 de julho de 1905, a Câmara Municipal de São João da Boa Vista resolveu desafiar o Governo do Estado. O Diretor da Repartição de Estatística e Arquivo do Estado havia enviado, dias antes, ofício aos vereadores ordenando que mudassem o nome da cidade.

Explicou em seu ofício que estava em curso um estudo para mudar o nome de várias cidades brasileiras por denominações “menos complicadas, de mais fácil pronúncia, de uma só sílaba, sendo possível de origem indígena”.

O OFÍCIO

A Câmara recusou a mudança e o Diretor da Repartição de Estatística e do Arquivo do Estado voltou à carga em ofício enviado aos vereadores de São João, no dia 3 de agosto de 1905, sendo bastante contundente: “Em meu poder está o ofício respondendo a uma consulta minha sobre a mudança de nome desse município para outro menos extenso, menos composto e menos sujeito a confusões prejudiciais ao serviço público”.

“Me participais que a Câmara Municipal não concorda com essa mudança por não encontrar apoio da população. A consulta não fora feita para saber se era do agrado ou não da população a mudança do nome, mas qual o nome que a Câmara preferia, uma vez que o nome atual é considerado prejudicial ao serviço público”.

“Temos no Estado: São João da Boa Vista, Santo Antônio da Boa Vista, Espírito Santo da Boa Vista, Santa Cruz da Boa Vista, Boa Vista de Pedra, além de São João da Bocaina, São João do Curralinho, São João da Floresta, São João do Capivari, São João do Rio Claro, São João de Cananéia, etc”.

“Quer, portanto, se considere pelo lado de São João, há muitos ‘S. João’ no Estado, quer pelo lado de Boa Vista, há também muitos ‘Boa Vista’. Para a administração, tanto estadual como federal, correspondência postal, etc., é grandemente inconveniente esta multiplicidade de nomes parecidos uns com os outros”.

E conclui seu ofício dizendo: “ Todos os lugares consultados(…) Concordaram com a mudança dos nomes e propuseram os nomes que lhes pareceram melhores; é para lamentar que só a Câmara dessa cidade se oponha ao plano”.

Por fim, ameaçou: “O nome será mudado, não obstante não ser do agrado da população, por ser de conveniência do serviço público”.

A DECISÃO

A queda de braço entre os vereadores de São João da Boa Vista e o Governo do Estado, através daquele departamento, durou muitos meses. Por fim, os vereadores venceram a parada e o nome da cidade continuou o mesmo.

Anos depois, na década de 1930, nova tentativa de mudar o nome de São João da Boa Vista. Agora, em plena Ditadura de Getúlio Vargas e por iniciativa do Governo Federal.

Além daqueles motivos já citados, o Governo informava que o Estado Novo não permitia mais a dualidade de cidades com o mesmo nome no vasto território brasileiro. E que o próprio governo é quem escolheria os novos nomes.

MUDANÇAS

Assim, nesta época, várias cidades brasileiras ganharam novas denominações. Só na região, para citar alguns exemplos: Cascavel passou a ser chamada de Aguaí; Espírito Santo do Rio do Peixe, que antes chamava Sapecado, foi rebatizada como Divinolândia; Vargem Grande ganhou o “do Sul”; Caracol, que já havia sido conhecida por Samambaia, passou a ser Andradas; São Carlos do Pinhal perdeu o ‘do Pinhal’; e assim foi em várias outras cidades

São João da Boa Vista, mais uma vez, iria resistir bravamente à mudança imposta pelo Governo. Até porque, o nome escolhido, embora de origem indígena, soava muito estranho e o povo de São João o considerou inaceitável. “Poraceba”. Assim, não dava mesmo.