Por Clovis Vieira
Em alguma edição da década de 1970, reportagem na Revista ‘O Cruzeiro’ chamava a atenção: “Meu nome é Astolfo, mas pode me chamar de Rogéria”. Estava ali, oficializado, o ‘nascimento’ da atriz e transformista que até hoje é presença marcante no teatro e em programas de televisão, causando agora muito menor alvoroço do que naquela época.
Se fôssemos atualizar e trazer para o nosso convívio aquela longa entrevista, quem sabe o seu título seria: “Meu nome é Adauto, mas pode me chamar de Fernanda… Fernanda Carraro”. Convívio, quem sabe, pode ser a palavra certa para identificar a presença de Adauto Antonio Fernandes entre nós: atriz, transformista, figura de destaque em passarelas de concursos Beleza Gay e em vários programas de TV, até há pouco tempo. Fernanda Carraro é, talvez , a cabeleireira de nove entre dez sanjoanenses, que podem ser chamados de ‘celebridades’.
UM NOME DE PESO
“Eu sempre tive muito orgulho do meu nome masculino e de tudo o que eu fui”, dispara o transexual sanjoanense, logo no início da conversa. “A minha vida… (baixa o tom de voz) era para ter sido uma tragédia, minha família era muito preconceituosa, um pai preconceituoso. Mas eu sou forte em tudo o que faço” -orgulha-se, voltando a falar com mais volume. Desde os seus 17 anos, Adauto se percebeu um ‘menino diferente’ dos demais.
E resume que não houve uma epifania, instalando, de repente, a Fernanda no corpo do Adauto. “Veio devagar, houve uma mudança em mim se realizando aos poucos. Até, porque, foi uma mudança muito drástica de gênero: eu tinha um guarda-roupas masculino, uma vida masculina, um cartão de identidade masculino. Um dia, quando eu ‘acordei’, já era Fernanda Carraro, por inteiro”.
Revelar a escolha do nome ‘de guerra’ ainda a diverte. Adauto participava de um concurso de beleza travesti em Poços de Caldas e não sabia que era preciso ter um nome feminino para a passarela. “Pensei: não quero ter um nome de travesti, como Veruska, Mariusha… (e ri, enumerando outros). Eu queria ter um nome comum e, como o meu sobrenome é Fernandes, escolhi Fernanda”, comenta.
Mas essa escolha não bastou: ainda era preciso um sobrenome, “porque, vai que um dia você se torne famosa, e só Fernanda não vai identificar você”, explicou a produtora do evento. “Daí, eu me lembrei que gostava de alguns livros de Adelaide Carraro (1936–1992), como ‘Eu e o Governador’ e ‘Eu Mataria o Presidente’. E ficou Fernanda Carraro, que tem um nome comum, com um sobrenome de peso. Um dia, até que tentei mudar, mas não consegui, porque o nome ‘pegou’”.
Desde outubro de 2012, o seu cartão de identidade diz que ela é Fernanda Carraro Fernandes. “Eu agradeço profundamente ao Dr. Misael dos Reis Fagundes, Juiz de Direito da 3ª Vara Cível da Comarca de São João da Boa Vista, de extrema imparcialidade, que me concedeu este nome sem que eu participasse de uma audiência para isso. Ele foi muito sensato, o mandado que ele expediu para a mudança d o meu nome — sem mudança de sexo — me fez chorar”.
Fernanda explica que essa oficialização facilitou muito a sua vida em situações como check-in de aeroportos, consultas em postos de saúde, onde é preciso confrontar o usuário com o nome que consta em sua certidão de nascimento, por exemplo. “Hoje, isso não existe mais e as pessoas me olham diferente de antes”, revela.
EU PENSO QUE…
A Revista Atua propôs um jogo a Fernanda Carraro: para cada palavra sugerida, ela revela o seu ponto de vista, a sua percepção do significado. Acompanhe.
Homosexualidade
“Ah, é uma maravilha para os gays que estão assumindo hoje em dia! É muito diferente da época em que eu assumi, em 1980. Naquele tempo, não era ‘feio’ para a família ter um filho gay… era feio para o bairro onde ele morava. Com relação à homofobia, hoje parece que há menos casos de homofobia. Mas há preconceito contra tudo por aí: contra rico, contra pobre, gordo, negro, deficiente… Eu acredito que as pessoas mais homofóbicas são os ‘piores’ homossexuais. Se formos fazer uma comparação, açougueiro não falaria mal de mecânico, ele falaria mal de outro açougueiro. Assim, as pessoas que falam mal de gays, são os ‘piores’ gays; estas acabam manifestando esse ódio, porque elas não conseguem se expor como um gay assumido expõem a si mesmas. É como aquela madame de sociedade que critica a menina que usa vestido curto; ela não usa porque talvez não tenha as pernas bonitas. Então, esse gosto reprimido se revela em ataque frontal.”
Religião
“Eu acredito, piamente, que há um Deus. Tem que existir uma força superior! Principalmente quando eu penso na engenharia disso tudo, que Deus criou um fruto doce para que o pássaro o coma e leve a semente para dali a 40 quilômetros, como uma maneira de disseminar aquele fruto… E a água limpa que cai, a gente suja, daí ela evapora sem a sujeira e cai limpa de novo. Nós não estamos aqui por acaso, tem que haver um criador disso tudo. No dia a dia, eu peço a Deus por tudo o que faço. Eu sou uma pessoa muito grata, porque, comigo, havia tudo para dar errado, eu tinha todas as ferramentas para andar à margem da sociedade, sendo gay, pobre, sem estudo… Eu fiz até o terceiro ano primário (ensino fundamental). A minha força vem, talvez, daquele sentimento de querer provar a todos- à família, principalmente — que não se é apenas gay, que sou um ser humano, que exerço um trabalho, que eu participo da sociedade”
Trabalho
“Eu tive uma família muito importante em minha vida. O casal Maria Aparecida Ventura Ferreira, que tem o apelido de ‘Darci’, e o Régis, me acolheu numa época muito difícil da minha vida. Eu fui levado para a casa deles e fui criado como filho. Quando eu assumi, tive muitos problemas com a minha família e esta outra me acolheu. Eu fazia a faxina da casa de Darci. Um dia, ela sentou-se comigo e disse que eu precisaria ter um trabalho, um ganha-pão. Eu revelei que o sonho da minha vida era ter um salão de cabeleireiro. Daí, ela montou um salão para mim, nos fundos da casa. Esta era uma profissão na qual a minha família não acreditava. Para eles, eu precisava de um emprego com registro em carteira. Eu acabara de sair de uma carreira de bailarino, de professor de dança, que eu também amava, mas que não me trazia um retorno financeiro legal. Como cabeleireiro, eu comecei cobrando baratinho, praticando em crianças, em pessoas mais simples e fazendo o meu nome. E vi, um dia, que eu já tinha um nome expressivo na cidade.”
Beleza
“Eu penso que a beleza é um sonho atrás do qual todos corremos. Eu me lembro de quando era jovem, e muito bonita, e as pessoas me diziam como eu era bonita, o meu corpo, o meu cabelo… mas eu não via essa beleza! Embora eu creia na perfeição do Universo, acho que com o ser humano Deus ‘cochilou’ (e ri dessa afirmação). Seria bom se nós nascêssemos bem velhos e, depois, fôssemos esticando, ficando bonitos. É muito triste para alguém que já foi muito bonito, ir se olhando no espelho, depois da passagem do tempo e ver o que restou. Eu até brinco, dizendo que o Tempo é uma fábrica de monstros… hahaha. A beleza é uma ideia inatingível. Quem entra no meu salão, vem em busca da beleza. Algumas dizem: ‘olha, eu tinha uma prestação das Casas Bahia para pagar, mas quer saber, depois eu vou lá e acerto. Eu vim fazer o meu cabelo, que está horrível’. É a beleza o motor que move o mundo.”
Espiritualidade
“Eu me preocupo muito com o ser humano. Eu choro quando vejo, em programas de televisão, alguns políticos furtando merenda, sabendo que há crianças que vão à escola só para comer aquela merenda que está sendo usurpada. Acho que todos nós estamos vivendo um ciclo de expiação tremenda, dias de um egoísmo muito grande, sem se preocupar se deixa ou não um legado para os seus filhos e netos e que tipo de legado será. Quando se vê mães permissivas, deixando que seus filhos usem drogas, sem se preocupar onde o filho obteve aquela bicicleta, mesmo sabendo que ele não tem dinheiro para comprar. Nós estamos caminhando para um caos. Há mais de 12 anos, eu cedo em empréstimo perucas que minimizam o impacto da perda de cabelos nas pessoas em tratamento contra o câncer, a quimioterapia. É um trabalho pequeno, como um grão de mostarda, mas eu faço com muito amor. E como cada caso é um caso, eu procuro adequar a aparência da peruca a quem vai usá-la — realizo pequenos cortes, mudo a cor dos fios se necessário, ajusto um penteado de forma voluntária… de modo que quase ninguém percebe o artifício.”
Vaidade
“Eu vejo meninas lindas, novas, que frequentam o meu salão, e acham ruim a perna que têm, o cabelo etc. E eu sempre brinco, dizendo: ‘minha filha, fique tranquila porque você estará no modo como pensa já estar, quando tiver a minha idade’. E a minha vaidade frequentou os maiores concursos de beleza: eu já venci o Miss Gay São Paulo, o Miss Pantera… eu tinha três sacos repletos de troféus naquele quarto. Veja só — num show que fiz no Mantiqueira Country Club, eu estava num maiô bonito, com um penteado elaborado e uma senhora ficou me olhando. Depois de um tempo, ela fala em voz alta: ‘gente, quem fala que isso é homem, que coisa mais linda!’ (e solta uma risada). Na televisão, eu estive no Sílvio Santos, no Programa do Bolinha, no Super Pop da Luciana Gimenez, no programa da Adriana Galisteu, várias vezes, na Hebe Camargo, no João Cleber… só não estive na Globo. Já fui capa de revista, apareci em entrevistas no Correio Braziliense, Estadão, na Folha de São Paulo e muitos outros jornais.”
São João da Boa Vista
“A minha cidade — falando de Prefeitura — nunca me deu oportunidade de apresentação. Quando eu estive em alguns programas de televisão, em que eu precisava de um veículo para transportar minhas roupas e fantasias, eu fui buscar apoio em Poços de Caldas, cidade que me ajudou em tudo. O que eu penso, é que algumas pessoas têm certo medo de ajudar e ser taxado como ‘envolvido’ comigo. Muita gente, eu sei, tem vontade de me ajudar nas ocasiões em que eu preciso, mas têm medo de uma sombra de envolvimento pairar sobre a sua imagem… Preconceito, mesmo! Eu tenho, entre clientes e amigos, muitas pessoas de bem, mas nunca tive o apoio da cidade. Quando houve aquele momento de tombamento do Theatro Municipal, eu participei ativamente. Depois, tentei por várias vezes realizar um evento, me apresentando no Theatro, mas nunca tinha vaga para mim. Não sobrou mágoa, mas restou um sentimento de curiosidade: por quê?”
Filosofia de vida
“A minha filosofia de vida é trabalhar, trabalhar, trabalhar. Eu adoro trabalhar. Todas as manhãs eu peço a Deus que me dê 100 anos de vida e força para trabalhar. Esta é a minha filosofia de vida.”









