Explorando oportunidades no campo e expandindo horizontes para novos mercados rurais

POR MAYQUELE LOIOLA MEIRELES

Atualmente, o setor rural representa a principal atividade em 57,3% dos municípios brasileiros, conforme dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A partir de transformações significativas no campo, impulsionadas pela presença de uma geração mais jovem e pelos avanços tecnológicos e industriais nas práticas agrícolas, o amor pela terra permanece arraigado e sendo passado de geração a geração.

Os novos e jovens empreendedores rurais seguem ávidos no agronegócio, dando continuidade ao negócio da família ou iniciando uma jornada por si próprios. E, surpreendentemente, o segmento consegue ser mais amplo do que parece. Não se limitando apenas ao plantio e cultivo, ele contempla um leque de possibilidades, que inclui a oferta de serviços, a venda de produtos, a prestação de consultoria, a criação de aplicativos ou software de auxílio à lavoura, e assim por diante. A partir disso tudo, o empreendedorismo rural passa não só a abrir portas para a criação de novas oportunidades, mas também de soluções para o agronegócio.
No empreendedorismo rural, os indivíduos muitas vezes aproveitam os recursos naturais disponíveis, como terras agrícolas, florestas, recursos hídricos e biodiversidade, para criar negócios que vão além da agricultura tradicional. Eles podem explorar oportunidades em setores como turismo rural, produção de alimentos orgânicos, artesanato local, energias renováveis, entre outros.

Além disso, o empreendedorismo rural muitas vezes promove a preservação do meio ambiente e a promoção da cultura local. Os empreendedores rurais frequentemente buscam equilibrar o desenvolvimento econômico com a conservação dos recursos naturais, contribuindo assim para a sustentabilidade a longo prazo das comunidades rurais.

A inovação desempenha um papel central no empreendedorismo rural, pois os empreendedores buscam soluções criativas para desafios específicos enfrentados pelas comunidades rurais. Isso pode incluir a implementação de práticas agrícolas sustentáveis, o uso de tecnologia para aumentar a eficiência na produção, a criação de cadeias de valor agregado e a busca por mercados diversificados.

Nesse cenário em evolução, merece destaque o notável crescimento do setor da apicultura, que atingiu recorde de produção no Brasil em 2022. O setor está experimentando uma expansão significativa, movimentada pelo aumento da demanda por produtos apícolas, como mel, própolis e outros derivados das abelhas. O crescimento recorde reflete o reconhecimento da importância da apicultura tanto para a economia quanto para a sustentabilidade ambiental, à medida que mais pessoas valorizam os benefícios dos produtos apícolas para a saúde e a reconhecem a sua contribuição para a biodiversidade.

APIÁRIO NA SERRA

Na conhecida região da Serra da Paulista, em São João da Boa Vista, encontra-se o apiário e meliponário Oásis, sob a liderança de Felipe Meireles, biólogo e botânico de 34 anos. As classificações do negócio, carregam consigo significados divergentes e abrangentes. Felipe explica que enquanto um apiário trabalha com abelhas européias ou africanas, conhecidas por terem ferrão, e trazidas ao Brasil pelos Jesuítas e posteriormente pelos pesquisadores da Embrapa, um meliponário trabalha com abelhas nativas do Brasil, que não possuem ferrão e somatizam mais de 300 espécies sociais. “Ainda que sejamos um apiário e meliponário, nosso maior enfoque é nas abelhas sem ferrão, que produzem um mel mais valorizado em comparação com as abelhas européias. Geralmente, trabalhamos com uma linha de pelo menos 10 variedades de mel, durante todo o ano, dentre a produção de abelhas com ferrão e sem ferrão. Às vezes esse número é até maior”, acrescenta o biólogo.

CULTURA EM CRESCIMENTO
O Brasil conta com aproximadamente 250 espécies de abelhas pertencentes à tribo Meliponini, chamadas popularmente de abelhas sem ferrão. Algumas destas espécies são criadas para a produção de mel, que tem sido cada vez mais valorizado para fins gastronômicos.

O Oásis está envolvido com a criação de abelhas desde 2005, e não se restringe apenas a comercialização de mel, mas também fornece pólen, própolis e enxames de abelhas. No que diz respeito a este último aspecto, Felipe esclarece que muitas pessoas buscam criar suas próprias colmeias em casa, em quintais e até mesmo em ambientes urbanos, sem o receio das picadas, já que as abelhas nativas não possuem ferrão.

O desejo de investir no setor, sempre existiu no biólogo e botânico, que é especializado em polinizadores, e estudava a área desde a faculdade. No entanto, o que também o orientou a empreender na apicultura, foi a compreensão da sua importância crucial para o ecossistema e a produção agrícola. “Aproximadamente 70% da produção agrícola depende, de alguma forma, da atuação das abelhas, seja para a própria produção ou para otimizar sua produtividade. A partir da polinização assistida, por exemplo, seja em qualquer tipo de plantação, pode-se aumentar o volume da produção em até 50%. Toda essa necessidade voltada para o campo gera uma rentabilidade muito bacana e significativa, e nos chamou a atenção”, informa.

Um dos maiores desafios para o desenvolvimento desse segmento é a identificação de localidades adequadas para o cultivo. “Essas áreas precisam atender a dois critérios essenciais: ausência de agrotóxicos e propensão para a produção de néctar”, explica Felipe Meireles. Na Serra da Paulista, além de uma rica produção de néctar devido às vastas áreas de preservação, o ambiente não é caracterizado por monocultura devido à sua topografia rochosa e montanhosa. Essa condição foi um dos principais motivos que levaram a mudança do apiário Oásis para essa região, há cerca de 2 anos atrás”, declara.

Quando se trata de perspectivas futuras, Felipe destaca o vasto potencial de crescimento e expansão do seu negócio. A propriedade já se dedica ao cultivo de mais de 900 variedades de frutíferas no pomar, segmento adicional que foca na venda de mudas de frutas raras, muitas vezes negligenciadas, mas resgatadas pelo empreendedor. A área opera de maneira simbiótica com as abelhas, pois oferece uma contribuição significativa, especialmente durante períodos de escassez alimentar devido à sazonalidade. Além disso, o biólogo conta que tem planos para implementar uma piscicultura na propriedade, e ampliar ainda mais a diversificação e sustentabilidade do empreendimento.

“Trabalhamos com o jardim botânico de frutas desde nossa chegada aqui. Nossos planos futuros incluem a abertura para visitas escolares, em que ofereceremos uma experiência gastronômica única, incluindo mel e frutas, que combinam muito bem. Além disso, estamos orgulhosos do nosso terceiro produto, ‘abelhas produzindo carne’, pelo qual fomos premiados em 2002. Esse projeto envolve a piscicultura alimentada exclusivamente com frutos caídos e mal formados, eliminando a necessidade de soja e ração. Essa iniciativa está interligada com as abelhas, pois ao posicionar apiários e meliponários próximos ao pomar, a produção de insumos se amplifica substancialmente, garantindo a subsistência da piscicultura exclusivamente com esses frutos”, explica o apicultor.