A costureira sanjoanense Yollanda Toratti, ficou famosa por seus vestidos de noiva perfeitos.
A costureira sanjoanense Yollanda Toratti, ficou famosa por seus vestidos de noiva perfeitos.

Por Bruna Mazarin

A idade não corresponde à vivacidade. Essa é a impressão de quem conversa com Yollanda Toratti. Aos 85 anos, a estilista e costureira sanjoanense conta suas memórias com riqueza de detalhes. Assim como alinhava cada peça para formar seus famosos vestidos de noiva, remonta seu passado no presente e tece planos para o futuro. Ao relembrar o caminho que a levou para a costura, Yollanda se emociona e conta, com lágrimas nos olhos: “eu era moça, tinha 14 anos e queria estudar. Mas meu pai me disse — hoje sei que foi Deus falando por ele — ‘filhinha, se eu mandar você estudar fora, o dinheiro que eu tenho não vai dar. Além de você, tenho mais seis meninas. Filhinha, vai aprender a costurar’. Na hora eu chorei porque eu queria ser professora e tocar piano. O sonho de uma menina pobre da roça, mas era o que eu queria. Claro que não respondi a meu pai, apenas obedeci e me silenciei”.

A partir da fala de seu pai, Yollanda foi procurar uma escola de corte e costura, onde teve seu primeiro contato com a profissão que levaria para a vida toda. “Em nove meses eu já costurava e fazia vestidinhos. Um dia, minha prima, Lourdes Bonfante, que iria se casar em breve, pediu pra que eu fizesse o vestido de casamento dela. Fiquei surpresa, não sabia se conseguiria. Mas aceitei e deu certo. E três meses depois fiz outro. E por aí foi, um atrás do outro”.

O capricho e a perfeição dos vestidos de Yollanda não demoraram a atrair noivas de várias partes. E o talento se aperfeiçoou ao longo dos anos e dos muitos cursos que a estilista se preocupou em fazer. “Depois de casada e com filhos decidi montar um ateliê em São Paulo, porque meu marido teve um problema financeiro e eu precisava ajudar. Fiquei 12 anos lá e costurei para a neta da Consuelo Badra, que era secretária do Juscelino Kubitschek.

Também fiz vestido para a neta de uma condessa italiana, a Paola. Enfim, foram muitos vestidos que fiz para pessoas importantes. Cheguei a fazer cinco vestidos por semana”. Durante essas sete décadas, Yollanda recebeu muitas mulheres que buscavam muito mais do que um vestido de noiva, buscavam a materialização de um sonho. “O meu dever é fazer o melhor. Costuro sonhos e é isso que me faz feliz. Eu sempre digo para as noivas que tudo o que faço é pra a honra de Deus e para a alegria e felicidade delas, além da minha alegria pessoal, por ter conseguido realizar um sonho”.

VESTIDO MAIS DIFÍCIL

Dos milhares de vestidos que Yollanda fez, um que a noiva não usou foi o que a costureira destaca como o mais difícil de todos. “Ela veio até mim para fazer seu vestido. Quando ela o colocou gritou que havia ficado muito gorda. Pois bem, refiz novamente a blusa do vestido. Ainda assim não estava bom para ela. Refiz novamente e liguei para a mãe dela. A mãe, meio sem jeito, me pediu muitas desculpas e disse que a filha havia ido a São Paulo e compraria a primeira coisa que gostasse”. Yollanda conta que não ficou chateada por conta da noiva não ter usado seu vestido, mas por não ter conseguido fazê-la “feliz”. “Disse à mãe dela que não havia o que desculpar. Ela acertou os pagamentos e eu não tive prejuízo. Ficou tudo certo”. Mas a história do vestido não acabou com aquele telefonema.

Convidadas da festa não hesitaram em comentar que o vestido da noiva “jamais” teria sido feito por Yollanda. “Soube que disseram que eu nunca faria um trabalho como aquele, que não era um de meus vestidos, pois meu trabalho era perfeito e aquele traje não”, conta.

TUDO PRONTO

Yollanda confessa que já está em seus planos deixar algumas roupas prontas, por conta de um problema nos joelhos. “Já tenho algumas blusas e vestidos lindos para deixar pronto. Eu quero sarar logo para poder trabalhar [recentemente um problema de saúde a afastou do trabalho]. Tenho que deixar tudo encaminhado. E eu gosto de tudo muito perfeito, sou muito exigente com o meu trabalho”.

Além disso, suas encomendas estão a todo vapor. Ela ainda atende noivas e faz as contas dos prazos que tem para entregar seus vestidos. “Tenho um casamento para daqui um mês, de uma noiva de Nova Odessa. Tenho outra também que se casará aqui, mas que preciso marcar a prova, ainda”. E acrescenta, brincando: “meus filhos dizem que foi bom eu ter tido esse problema nos joelhos, senão ninguém ia me segurar”.

EXPOSIÇÃO

De dezembro de 2015 a janeiro de 2016, foi realizada no GLOC Fábrica, uma exposição sobre os 70 anos de atividades de Yollanda. O público pôde ver de perto alguns vestidos de noiva confeccionados por ela, acessórios e diversas fotos. Todo o material foi reunido por sua sobrinha, Adriana Torati. “Meus familiares resolveram prestar essa homenagem nos meus 70 anos de trabalho. Fiquei imensamente feliz. Significa que tudo o que fiz na vida trouxe alegria para as pessoas. Sinto-me realizada”, finaliza Yollanda.

ORIGEM DO VESTIDO DE NOIVA

Os vestidos de noiva tornaram Dona Yollanda famosa. A tradição tem uma origemmuito antiga e também questionável. De início, as cores eram variadas, contanto que os vestidos fossem suntuosos, luxuosos. Até porque o casamento era visto como um arranjo comercial e o vestido da noiva servia justamente para mostrar à sociedade que as famílias tinham posses. “Os vestidos podiam ser de qualquer cor, inclusive muito se usou vermelho em épocas mais remotas, como na Idade Média (entre 476 d.C. e 1453 d.C.) e em culturas diferentes, como no Japão, Índia e China”, conta Míriam Costa Manso, professora do curso de Design de Moda da UFG (Universidade Federal de Goiás).

A discrição nem sempre foi sinônimo de bom gosto na moda, tanto que a noiva romana, por exemplo, podia usar um véu vermelho escuro, quase em tom de vinho, sobre uma túnica amarela cor de açafrão. Na Grécia antiga, as mulheres usavam cores escuras, inclusive com estampas.

Já o preto predominou na alta Renascença (século XVI), entrando no período barroco (século XVII), diz Míriam, que ensina história da moda. Foi a época em que a Espanha ganhou primazia nos costumes europeus, e a cor mais propícia para se apresentar em uma sociedade extremamente religiosa, inclusive para as noivas, era o preto. Esqueça o bom e velho preto básico, pois as vestimentas eram pesadas e luxuosas.

O BRANCO ENTRA EM CENA

Sobre a origem do vestido branco, não há consenso. Registros indicam que a rainha Mary Stuart, da Escócia, foi pioneira e aderiu ao branco no século XVI. Uma das explicações para a escolha foi que Mary Stuart fez uma homenagem à família Guise, de sua mãe, que tinha a cor branca no brasão.

Mas o amor romântico faz com que muitos atribuam a origem do vestido de noiva branco à rainha Vitória, da Inglaterra, no século XIX. Isso porque ela foi uma das primeiras nobres a se casar por amor e em um esplendoroso traje, com vestido e véu brancos e sem coroa, o que também foi inédito. Por ser uma rainha, foi ela quem pediu o marido, o príncipe Albert, em casamento. Depois que o marido morreu, a rainha Vitória só usou preto, conta Míriam.