A expansão do mercado da beleza, os riscos da distorção corporal e os caminhos para equilibrar cuidado físico e mental

POR JOÃO LOPES RIBEIRO e PEDRO HERNANDEZ

Quando Aristóteles disse, há mais de dois mil anos, que “o belo é o esplendor da ordem”, talvez não esperasse que o conceito pudesse ser tão reinterpretado quanto a história nos mostrou.

Dos deuses gregos representados em estátuas de mármore aos modelos fitness das redes sociais, a busca pela imagem divina não apenas permaneceu viva, como se intensificou – hoje, o Brasil movimenta cerca de R$ 48 bilhões por ano no mercado da estética e bem-estar.

Não há equívoco em admitir que, socialmente, ser considerado bonito abre portas em (quase) todos os espaços. Nas mídias, por exemplo, é comum ouvir relatos de influenciadores – e até mesmo anônimos – que perceberam uma mudança nítida no tratamento social após se aproximarem do padrão estético. Relatam mais convites para festas, mais elogios, mais encontros íntimos. São experiências que podem acontecer com um amigo, parente, colega de trabalho ou até você mesmo.

Mas se, por um lado, a corrida pelo “shape inexplicável” ou o rosto perfeito trazem realização pessoal e qualidade de vida, a obsessão por um padrão de estética também pode ser profundamente nociva para quem topa entrar nessa disputa. Há inimigos quase invisíveis, como a dismorfia corporal, os transtornos alimentares e a aplicação de hormônios e substâncias químicas sem controle médico, que espreitam as arquibancadas, apenas esperando a oportunidade certa para derrubar o competidor.

Se você, ao cair nessa armadilha, por sorte conseguir desviar ou enganar essas ameaças, ainda terá de se preocupar com o fato de que o juiz sempre está vigilante aos corredores e às regras do jogo: seu nome é tempo.
Engana-se quem pensa que o prêmio final é um troféu – na verdade, é permanecer correndo sem demonstrar cansaço. Tentar fugir das leis do tempo, para muitos, é o objetivo.


A RODA DA FORTUNA

Encontrar o equilíbrio entre autocuidado, saúde e beleza é complexo, e não raramente, caro. Para a realidade de muitos, qualquer real gasto a mais faz diferença no fim do mês. Apesar de ter registrado a menor diferença entre os polos de rendimentos da sua história em 2024, o Brasil segue pontuando como um dos países mais desiguais economicamente no mundo, com o valor de 0,506 no índice de Gini, que vai de 0 a 1.

Ironicamente, mesmo diante desse cenário, o mercado da estética prospera como nunca. Gabriela Domingues, farmacêutica pós-graduada em Cosmetologia e Manipulação Magistral Alopática, entende que esse movimento parte de uma necessidade de estar confortável consigo mesmo. “As pessoas procuram se sentir bem na própria pele, melhorar a autoestima e até recuperar uma confiança perdida”, afirma a profissional, que já atua há 15 anos na área.
De acordo com Gabriela, os clientes buscam sim, personalizar os pedidos conforme sua renda e seu dia a dia, mas o verdadeiro foco paira sobre as necessidades fisiológicas da pele. “Existe um desejo de exclusividade, mas também de simplicidade, ou seja, produtos que tragam resultados visíveis sem complicar a rotina”, explica.

Quanto ao público que procura por esse tipo de serviço, a profissional aponta que a diversidade aumentou nos últimos anos. Segundo Gabriela, a maior parte da clientela ainda é composta por pessoas do gênero feminino, entre 30 e 60 anos, mas a demanda dos homens e de pessoas jovens (abaixo dos 25 anos) cresceu muito desde que iniciou no mercado dos cosméticos, em 2010.

PROCURA QUE NÃO PARA DE CRESCER
Procedimentos estéticos são cada vez mais procurados por diferentes públicos, com foco na harmonia entre saúde, beleza e autoestima. Técnicas modernas garantem resultados seguros, adaptados às necessidades individuais e respeitando a integridade do corpo.

Uma das explicações para o aumento na procura pelos produtos de cuidados pessoais é a ascensão das redes sociais na última década. “O lado positivo é que a população percebeu que cuidar de si não é um luxo, mas uma necessidade. Porém, essa ‘busca’ pode virar uma cobrança exagerada e gerar frustração, pois os resultados vistos nas mídias não refletem a realidade”, pontua Gabriela.

De acordo com ela, a influência das redes sociais na percepção da autoimagem dos jovens contribui para essa “paranoia” do combate exagerado ao envelhecimento. Não é incomum que clientes (de todas as idades) cheguem até a farmácia pedindo para ficar com a pele “igual ao filtro do Instagram”, ou se inspirando em relatos de resultados milagrosos após o uso de uma determinada substância ou algum tipo de procedimento.

A farmacêutica, no entanto, deixa claro que até a comercialização de cosméticos tem limites. “Sou contra o movimento da rotina pesada de skincare para crianças e adolescentes, pois alguns produtos possuem disruptores endócrinos”, explica a profissional, deixando claro que essas substâncias não são benéficas para jovens em desenvolvimento e podem até desregular a ação dos hormônios naturais.

E por falar em fórmulas, Gabriela conta que as mais procuradas hoje em dia costumam conter vitamina C, niacinamida, ácido retinóico, ácido hialurônico e PDRN, uma molécula extraída do DNA do salmão. “Essas substâncias estão em alta porque têm eficácia comprovada e se tornaram tendências globais, mas é importante esclarecer que cada pele tem uma demanda por cuidados muito específica”, destaca a farmacêutica.

A dica de ouro, segundo Gabriela, é sempre procurar um profissional da saúde ou cosmética para realizar um investimento mais certeiro, que utilize a ciência a seu favor e ofereça resultados visíveis e adequados ao seu tipo de pele. “Outra recomendação é começar pelo simples: uma boa rotina de limpeza, hidratação e proteção solar são mais do que suficientes para obter saúde e beleza sem contrair dívidas exorbitantes”, conclui.

CUIDADO E RESULTADOS
A farmacêutica Gabriela Domingues explica que os cuidados com a pele vão além da estética: são uma forma de bem-estar, autoestima e saúde. Segundo ela, os clientes buscam resultados visíveis, adaptados à rotina e às necessidades fisiológicas.

ESPELHO DA ALMA

Ao mesmo tempo em que os filósofos da Grécia Antiga tinham profundo fascínio pelo corpo humano em seu máximo potencial atlético, havia consenso sobre a necessidade de também se manter íntegro mentalmente. Estudar tinha tanto (ou mais) peso quanto se exercitar. Tal dinâmica pode ser traduzida na famosa expressão romana “corpo são, mente sã” — de nada adiantam fortes músculos se o cérebro está apodrecendo.

Vivian Inácio da Rosa, psicóloga clínica desde 2013 com especialização em Saúde Mental e Psicologia Perinatal, aponta que parte importante do se achar bonito não está relacionada à aparência física. “A autoestima estética está mais voltada para o quanto eu conheço e aceito o meu corpo”, explica.

A exposição massiva a “corpos e rostos perfeitos” oferecida pelas redes sociais também contribui para a distorção da autoimagem. “Se o indivíduo não tem estrutura mental para questionar as imagens que aparecem no seu feed, talvez a melhor escolha seja evitar esse tipo de aplicativo”, sugere Vivian.

Cuidar-se é importante, mas é preciso compreender que a vida é finita, e que rugas e marcas de expressão são normais. “Beleza e autocuidado são relevantes para um primeiro contato, mas as relações entre pessoas se mantêm apenas quando ultrapassam a barreira da aparência física”, afirma.

A MEDICINA DA FORMA E DA FUNÇÃO

O cirurgião plástico Dr. José Álvaro Vasconellos de Almeida, especialista pela Universidade de São Paulo, a USP, e com mais de duas décadas de atuação na área, concorda que a estética tem papel essencial na autoestima — mas ressalta que o principal foco da cirurgia plástica deve ser o equilíbrio entre forma e função. “O corpo humano não é uma escultura estática. É um organismo vivo, em movimento. O papel da cirurgia plástica é restaurar harmonia e bem-estar, nunca impor um padrão”, afirma.

Segundo o médico, os avanços tecnológicos e as novas técnicas tornaram os procedimentos mais seguros e previsíveis, mas também abriram espaço para distorções. “Hoje, qualquer resultado é mostrado nas redes sociais como se fosse uma transformação milagrosa. A cirurgia pode, sim, ser um divisor de águas, mas deve sempre ser conduzida com responsabilidade. Quando a motivação é seguir uma tendência, o risco de frustração é bem alto.”

Para o Dr. José Álvaro, a consulta pré-operatória é o momento mais importante do processo. “É quando o médico precisa entender o motivo real do desejo do paciente. Às vezes, ele chega pedindo uma rinoplastia, mas o problema está na autopercepção, não no nariz. A cirurgia, nesse caso, não resolveria a questão emocional — e poderia até agravá-la.

Além da parte técnica, o cirurgião destaca o papel educativo do profissional. “A beleza está ligada à simetria e proporção, mas também à naturalidade. O melhor elogio que um paciente pode receber depois de uma cirurgia é: ‘você está ótimo, mas não sei o que mudou’. Esse é o sinal de que a intervenção foi harmoniosa, respeitou sua individualidade e manteve sua identidade.”

Sobre o uso cada vez mais precoce de procedimentos estéticos, o Dr. José Álvaro faz um alerta: “Não é porque algo está na moda que deve ser feito. A medicina é ciência, não entretenimento. Antes de qualquer intervenção, é preciso avaliar a saúde, a idade, o histórico familiar e, principalmente, as expectativas.”

HARMONIA E RESPONSABILIDADE
Para o Dr. José Álvaro, envelhecer com dignidade é uma conquista. A cirurgia plástica pode suavizar o tempo, corrigir desconfortos e restaurar confiança, mas sempre mantendo a identidade do paciente.
A estética, combinada ao cuidado emocional, promove harmonia verdadeira, e saúde equilibrada.

O médico também comenta o impacto psicológico dos resultados. “Uma boa cirurgia pode mudar a forma como a pessoa se vê e se apresenta ao mundo. Mas é essencial que essa mudança venha acompanhada de equilíbrio emocional. Não existe perfeição – e tentar alcançá-la é um caminho de sofrimento.” Ao falar sobre os novos caminhos da cirurgia plástica, Dr. José Álvaro destaca também o papel da medicina regenerativa e dos tratamentos complementares.

Ele conclui com uma reflexão que sintetiza sua visão sobre a profissão: “O maior desafio do cirurgião plástico é encontrar o ponto em que a técnica encontra a ética. A cirurgia pode transformar, mas o objetivo deve ser sempre a harmonia, nunca a padronização. A beleza está na diversidade, e a medicina deve servir à individualidade, não ao espelho coletivo.”

Por fim, ele enfatiza que envelhecer com dignidade é uma conquista. “A cirurgia plástica pode suavizar o passar dos anos, corrigir o que causa desconforto, mas não deve apagar a história de um rosto. Cada linha e cada marca contam quem somos. O verdadeiro rejuvenescimento vem quando a pessoa se olha no espelho e reconhece a si mesma.”

Entender o próprio ritmo, reconhecer limites e valorizar pequenas mudanças se tornam gestos que sustentam uma relação mais saudável. Quando o cuidado deixa de ser uma busca por aprovação e se transforma em um ato de respeito pessoal, tudo ganha outro sentido. É nesse caminho que a harmonia verdadeira encontra espaço para existir.