Natural de São João da Boa Vista, pianista é referência até os dias atuais.
Conheça algumas curiosidades e trajetória
POR DANIELA PRADO
Em São João da Boa Vista é bastante comum encontrar referências à Guiomar Novaes, pianista consagrada por seu virtuosismo inato, que a levou a se apresentar em diversos países e a ser considerada, pelos especialistas, uma das maiores da história. Nascida em 28 de fevereiro de 1895, a menina começou a se interessar pelo piano – e a tocar!-aos quatro anos de idade, imitando os movimentos que suas irmãs mais velhas faziam.
Aos sete, já sabia ler as notas musicais e aos oito, se apresentava em audições promovidas por seu professor, o italiano Luigi Chiaffarelli, no Conservatório Dramático e Musical de São Paulo.
Em 1908, aos 14 anos, fez sua primeira apresentação como profissional no Rio de Janeiro, executando a Grande Fantasia Triunfal sobre o Hino Nacional Brasileiro, de Louis Moreau Gottschalk.

O próprio Chiafarelli a recomendou para participar de um Concurso para ingressar no Conservatório de Paris, em 1909, e Guiomar classificou-se em primeiro lugar entre os 388 candidatos que disputavam 11 vagas, das quais somente duas eram reservadas a estrangeiros.
A partir daí, a atuação da sanjoanense no exterior se estendeu por várias décadas, com momentos marcantes. Em 1965, foi escolhida pelo jornal francês Le Monde como uma das dez melhores concertistas de todos os tempos. Em 1951, foi escolhida para ser a solista nos eventos que marcaram o concerto nº 5.000 da Orquestra Filarmônica de Nova York. Já em 1967, realizou um recital na inauguração do Queen Elizabeth Hall, em Londres, a convite da Rainha Elizabeth II. Na ocasião, a pianista foi aplaudida durante 15 minutos ininterruptos, por onze mil pessoas.
Na visão do arquiteto e historiador sanjoanense Antônio Carlos Lorette, o grande talento de Guiomar Novaes era sua capacidade de interpretar composições de forma única. Entre suas principais performances estavam as obras de Schumann, Chopin e Heitor Villa-Lobos. “Parecia que ela conseguia entender como o compositor imaginou originalmente a peça. É com isso que eles [avaliadores e público] ficavam espantados. É lógico que não era a original, mas ela tinha uma interpretação muito aprimorada. Ela era considerada um gênio do piano”, observou. O jornal New York Times chegou a publicar uma crítica, que dizia que “[Guiomar] Toca como se algum espírito estivesse soprando em seu ouvido os segredos mais profundos de toda a harmonia”.
NASCIDA EM SÃO JOÃO?
Apesar de ter nascido em São João da Boa Vista, Guiomar Novaes mudou-se com a família para Campinas, aos quatro anos de idade e após um tempo, transferiu-se para São Paulo, de modo que viveu pouco em sua terra natal.
A própria pianista não costumava mencionar São João, quando concedia entrevistas a veículos de comunicação estrangeiros. Era comum aparecer que ela tinha nascido em São Paulo ou em Campinas e isso causava certa revolta em alguns sanjoanenses, pois parecia que Guiomar desprezava a cidade. Lorette explica que isso se tratava de uma adaptação feita pelos veículos de imprensa estrangeiros. “Contou [na entrevista] que levava um cartão postal de São João da Boa Vista na carteira dela porque, quando perguntavam onde nasceu, ela o mostrava. Era um cartão postal que mostrava a paisagem da cidade, Guiomar tinha a maior adoração pela cidade onde tinha nascido”, relatou.
DRIBLAR PRECONCEITOS
O talento inquestionável de Guiomar Novaes despertou interesse e carinho dos estrangeiros, mesmo que ela também tenha experimentado o preconceito. “Quando, pela segunda vez, saltei em Nova York, aos jornalistas que me assediaram com pedidos de entrevistas, tive a oportunidade de falar do desenvolvimento da música brasileira. Disse-lhes que tínhamos compositores como Nepomuceno e Oswald, pianistas como Alice Serva, Antonietta Rduge, Madalena Tagliaferro e Souza Lima, e eles sorriram. De desconfiança sim, pois não somos mais do que uma hipótese para eles”, confessou Guiomar Novaes, em entrevista à Cigarra, edição de 1º de novembro de 1924.
Como ‘resposta’, a brasileira passou a incluir em seu repertório obras de compositores brasileiros, como Heitor Villa-Lobos. E seu sucesso abriu portas a outros artistas nacionais, que foram para a América – Bidu Sayão, Camargo Guarnieri, Carmen Miranda, por exemplo, que, aliás, eram amigos e admiradores de Guiomar.
Em 1941, em Nova York, foi criado o Prêmio Guiomar Novaes, para promover intercâmbio de pianistas americanos no Brasil, iniciativa seguida por Mr. Judson, para pianistas brasileiros nos Estados Unidos. Guiomar declarou ao Diário de Notícias [edição de 6 de maio de 1941] que “Há muito tempo que acompanho o talento musical do nosso povo e sinto as grandes vocações que abundam em nossa terra […]. Muito tenho pensado neles, sempre que me vejo na América, onde venci pelo trabalho […]”.
SEMANA GUIOMAR NOVAES
Em homenagem à história e carreira da pianista, São João da Boa Vista promove, anualmente, a Semana Guiomar Novaes, que chegou à sua 46ª edição em 2023. Criada em 1977, pelo então prefeito Nelson Nicolau, com o intuito de homenagear a pianista sanjoanense, a Semana Guiomar Novaes originalmente acontecia no mês de junho, devido à Lei nº 06, de 30 de março de 1977, que instituiu que o evento anual integraria as festividades em comemoração ao aniversário da cidade.
O historiador Antonio Carlos Rodrigues Lorette recorda que a história desta Semana vem do evento de artes promovido pela professora de artes Maísa Barcelos do Amaral, com os alunos do Instituto de Educação, e foi se diversificando. “Chamava-se Semana do Artista Sanjoanense. Na intenção de transformá-lo em evento cultural reconhecido pelo Estado, intitularam de Semana Guiomar Novaes. E nas duas primeiras edições, a própria Guiomar Novaes esteve presente, na plateia do Cine Ouro Branco. Na ocasião, ela foi ao Museu Histórico e Pedagógico ‘Armando Salles’, para oficializar a doação de diversos itens particulares, como diplomas, medalhas, fotos, vestidos assinados por Denner”, mencionou.
Lorette recorda que, no início, os eventos eram constituídos por música clássica, orquestras, conjuntos de instrumentos, quase sempre acompanhados por piano, ou às vezes, com apresentações de balé.

“Nas primeiras semanas, fui com minha mãe, porque ela tocava piano e eu aprendia com dona Ditinha Camargo. Mas lembro-me pouco. Era muito interessante, principalmente as orquestras com os principais pianistas do Brasil e alguns visitantes do exterior. Para o povo, era erudito demais. Não havia tradição cultural para tanto. Quando entrei na faculdade de Campinas (1986), vinha no final de semana, para assistir. Nesta época começou-se a discussão para inclusão de eventos populares, mas que não descaracterizassem a Semana”, pontuou.
“Quando conseguiu, finalmente, utilizar os espaços do Theatro Municipal, após o restauro, a Semana Guiomar Novaes tornou-se de interesse público, bastante diversificado, com shows variados, tendo como ápice os balés, com filas e mais filas para conseguir entrada. Vinham caravanas de cidades da região, até de Minas Gerais”, citou.
E destacou que as últimas gestões de Cultura foram fundamentais para o processo que deixou a Semana mais diversificada, com ampliação de horários e aproveitamento de todos os equipamentos públicos da cidade, até mesmo praças e escolas.
Tarcísio Munhoz, diretor de Cultura na gestão municipal 2020/2024, lembra que começou a frequentar o evento no final de sua adolescência. “Foi um período muito bacana. Descobrir a Semana Guiomar Novaes e o impacto dela foi algo muito marcante na minha trajetória”, confessou.
Das lembranças que tem do evento, Munhoz cita a presença da pianista Eudóxia de Barros, interpretando Guiomar Novaes; Funmilayo Afrobeat Orquestra, Sergio Brito e a primeira apresentação da Orquestra Brasileira Inclusiva na Semana Guiomar Novaes. “Foram apresentações que marcaram demais para mim. Atrações que celebram a diversidade e promovem o legado cultural da homenageada, muito representativo.” A Semana Guiomar Novaes representa muita gente. É imprescindível celebrar e vivenciá-la, usufruindo de tudo aquilo que ela nos oferece.












