Antonio de Oliveira Camargo
O sanjoanense Antonio de Oliveira Camargo foi um dos mais importantes pesquisadores da doença de Chagas no Brasil. Em São João, hoje, ele é quase desconhecido
Por Wesley Colpani

Sábado, 20 de fevereiro de 1915, mais um dia comum na história mundial, mas não para São João da Boa Vista (SP). Nesta data vinha ao mundo um dos nomes mais importantes do município. Nascia Antonio de Oliveira Camargo, um dos principais pesquisadores da Doença de Chagas no Brasil.

Casado com a professora de piano, Benedicta Estevam de Camargo, e pai de três filhos: Marly Evangeline Estevam de Camargo, Antonio Claret Estevam de Camargo e Marly Therezinha Estevam de Camargo, o professor, título recebido em reconhecimento ao importante trabalho desenvolvido, mais conhecido como Titi Camargo, não cursou ensino superior e trabalhava no Centro de Saúde.

Devido ao convívio diário com a população mais pobre e impressionado com o grande número de casos da doença de Chagas na região, resolveu, por conta própria, montar seu laboratório para pesquisar e combater o barbeiro, inseto transmissor da doença.

Após anos de pesquisas ele venceu um dos prêmios mais importantes da década de 60. No Natal de 1966, Titi acabara de vencer o prêmio Bondade Noite de Natal, em reconhecimento ao trabalho que vinha desenvolvendo no combate à doença.

PREMIAÇÃO

Patrocinado pela Folha de São Paulo, a entrega do prêmio ocorreu no sempre luxuoso Edifício Itália. A cobertura era feita pela maior emissora de televisão da época, a TV Tupiaproveite para conhecer a história da TV em São João. Seu Titi recebeu o prêmio das mãos de Wélter Forster, o mais famoso apresentador do Brasil nos anos 60. O professor disputou com outros 21 candidatos de todo o país. Quando premiado, já realizava suas experiências há 18 anos. Instituído pelo Circolo Italiano di San Paolo, o prêmio visava homenagear pessoas anônimas que realizavam trabalhos diferenciados. Para concorrer era necessário a indicação de outra pessoa. Camargo foi lembrado pelo cunhado, Geraldo Rodrigues Estevam.

Titi era conhecido e admirado por todos na cidade, pois, além de criar um ambiente adequado para estudar o barbeiro e desenvolver na cidade uma conscientização sobre o perigo que o inseto representava, ele dava toda assistência e carinho àqueles que, picados pelo “bicho”, o procuravam durante o dia ou no meio da noite.

A professora Marly Camargo, filha mais nova de Titi, conta que o pai nunca esperou qualquer retorno financeiro de suas pesquisas. Ela lembra que o objetivo dele sempre foi o bem estar dos mais carentes, maiores vítimas do inseto transmissor. O professor manteve seu laboratório e pesquisas, voluntariamente, por mais de 20 anos. Suas experiências ajudaram o país a melhorar suas técnicas para diminuir a doença, drasticamente,

SACRIFÍCIO 

Marly ainda relembra que o pai, por diversas vezes, foi a própria cobaia de seus experimentos. Com a falta de voluntários para realizar as pesquisas, permitia que o barbeiro o picasse, para, em seguida, analisar como era a reação ao inseto. Titi, que ficou famoso no meio acadêmico e cientifico, recebeu a visita do ilustre e mais importante médico da época, Dr. Euryclides de Jesus Zerbini, que fez questão de vir a São João para conhecer o pesquisador pessoalmente.

Antonio de Oliveira Camargo veio a falecer no dia 28 de outubro de 1972, aos 57 anos, vítima do Mal de Chagas. Se foi devido às experiências ou por ironia do destino, ninguém sabe afirmar. Mas a convicção que nos resta é esta: “Seu Titi” merece, e muito, ser sempre lembrado por todo o seu trabalho.