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Há mais de cinco anos, a vida agitada de Alexandre Martins Figueiredo, hoje com 50, poderia ter acabado. Porém uma lesão medular incompleta traumática entre as vértebras cervicais 6 e 7, causada por um trauma após uma prática esportiva, não o fez desistir.
Figueiredo é sanjoanense, Ortodontista e Capitão Dentista aposentado da Polícia Militar. Atualmente, tem sua clínica onde, como ele mesmo diz: “trabalho muito mais focado profissionalmente e muito melhor do que antes”.
No esporte, possui um equipamento chamado Handcycle (cadeira de rodas para atletismo), com o qual já participou da corrida de São Silvestre, em 2009. “Estou treinando bastante, pois em março iniciarei uma sequência de várias competições, numa equipe chamada Achilles International, que congrega atletas com necessidades especiais em 70 países”, destaca.
O ortodontista tinha um processo de estreitamento do canal por onde passa a medula que ele mesmo desconhecia, possivelmente causado por um fator genético.
Segundo os médicos, uma lesão com essas características é considerada definitiva após dois ou três anos. Ou seja, neste momento sua lesão está estabilizada e é irreversível. O fato ocorreu em setembro de 2006.
Esperança - Figueiredo conta que existem muitas pesquisas e especulações sobre sua lesão, porém ainda não há um tratamento. Basicamente, a fisioterapia é direcionada a manter ossos e músculos envolvidos saudáveis e com possibilidades de uso futuro.
Quanto à possibilidade de andar novamente, os médicos garantem que, atualmente, não há. “Porém, a tecnologia evolui rápido e não sabemos se, no futuro, isso será possível. Apesar de andar ser uma coisa muito importante, não vivo em função disso. Aprendi que devemos viver plenamente com o que temos no presente, pois só assim poderemos aproveitar os possíveis avanços da ciência no futuro”, relata.
A reabilitação – A perda para Alexandre com o acidente foi muito grande. “Eu era atleta, treinava corrida e jiu jitsu alternadamente, quase todos os dias. Em alguns minutos, tudo isso acabou”.
Ele não se lembra exatamente quais foram seus pensamentos dias depois do ocorrido, mas, segundo conta, sua atitude sempre foi a de achar maneiras de voltar às atividades esportivas e profissionais.
“Inicialmente, tinha grande esperança de que tudo voltasse ao normal. Mas, com o decorrer dos dias e durante minha internação, fui entendendo que precisava seguir em frente. Tive a oportunidade de conhecer verdadeiros guerreiros, pessoas que vivem felizes com deficiências muito maiores que a minha”, salienta.
Alexandre possui três filhos que, segundo ele, estavam acostumados a ver o pai “dando duro” no trabalho e no esporte. Quando tudo aconteceu, sentiu nos olhos deles uma tristeza profunda pela sua total incapacidade. Naquele momento, viu que não podia decepcioná-los. “Eu tinha que voltar a ser o que eles esperavam que fosse. Sei que este exemplo meus filhos levarão para suas vidas. Tenho certeza que nunca deixarão de lutar pelas suas famílias da mesma forma que viram o pai deles”, ressalta o ortodontista.
Quanto à importância da família e dos amigos no processo, Figueiredo garante que é total. “Meus pais, esposa, filhos, irmãos e todos os meus amigos, em nenhum momento, permitiram que eu deixasse de acreditar que poderia estar aqui, hoje, vivendo plenamente”.
E completa: “Talvez jamais consiga retribuir isso tudo. Porém, acho que minhas vitórias de cada dia são a maneira que tenho de agradecer a todos que acreditaram que isso seria possível. Nos momentos difíceis da vida, quando as pessoas que você ama sinceramente acreditam no seu poder de superar as dificuldades, temos a obrigação de pelo menos tentar com todas as forças. É isso que fiz e tento fazer até hoje”, ponderou.
Diferença – “O principal de quando adquirimos um tipo de limitação é que nossas atitudes e maneiras de fazermos as coisas serão simplesmente diferentes. Só temos que descobrir novas possibilidades e desenvolver habilidades para tal”. Este é Alexandre Martins Figueiredo. Uma pessoa especial que, a cada descoberta, possui uma nova vitória, tornando-se vencedor todos os dias.
Para finalizar, o ortodontista deixou um recado. “Não é possível pular do dia do acidente para hoje. Todos passaram e passarão pelos mesmos problemas: frustração, depressão, raiva etc., até o dia em que descobriremos que nossos problemas continuam os mesmos e exatamente como os de todo mundo. Ser normal é apenas uma questão de referencial”, conclui. |